23 de março de 2013

Eu publiquei um livro!

OK, OK. O título da postagem é um pouco exagerado. Mas, desde que o livro em questão foi publicado, meus amigos (ou, pelo menos, um deles) sempre dizem às pessoas que eu publiquei um livro. É sempre “Ei, você sabia que o Caio publicou um livro?”, daí eu tenho que explicar que não é bem assim. O que aconteceu, mesmo, é que eu tive um conto publicado em uma antologia, com mais 33 autores. No livro, o meu conto ocupa cinco páginas, de um total de 238.

Mas, ei, já é alguma coisa. Bem, o livro em questão se chama “Quimera”, da Andross Editora. Segue abaixo uma imagem da capa do livro, o conto que eu escrevi e, depois, mais algumas informações.

Né por nada não, mas de todos os livros que eu possuo, esse tem a capa mais legal.





Nós o Despertamos



Adam virou-se e viu a torre.

Apenas alguns segundos depois ele se deu conta de que devia sair dali o mais rápido possível e então voltou a correr.

— O que foi aquilo, cara? — perguntou Sandra. Havia um cálice dourado em sua mão direita. — Você está tentando ser comido?

— Me desculpe! — Adam gritou. — Aquela torre exerce um efeito esquisito sobre a gente, às vezes não dá pra não olhar!

As criaturas se aproximavam deles. Ágeis homenzinhos de pele azul escura. Os rostos, máscaras brancas salpicadas dos pontos vermelhos que eram os olhos. Olhos famintos por carne humana. Aproximaram-se mais.

Fred, que estava na frente, gritou:

— Penhasco!

— O quê? — Sandra perguntou.

— Penhasco! — Fred repetiu.

— Diacho! — Adam exclamou. Os três chegaram à borda e observaram o deserto abaixo. — O que a gente faz agora?

— Pula! — disse Fred.

— O quê? — disse Sandra. — Você está louco!

— Não vamos sobreviver a uma queda dessas — disse Adam.

— Não há tempo para discutir, apenas pulem!

Fred pulou primeiro. Sandra e Adam decidiram que era melhor que serem devorados, e então o acompanharam.

Fred caiu com o corpo na horizontal. Adam e Sandra ficaram em uma posição vertical, quebrando a resistência do ar, e o alcançaram.

— Nós vamos morrer! — Sandra gritou.

— Não vamos — Fred respondeu.

— Tem razão! — exclamou Adam. — Já estamos mortos.

— Por que não confiam em mim só por um instante?

Os três estavam a ponto de atingir o chão. Adam imaginou todos os seus ossos se esmigalhando, quando uma luz cegante surgiu abaixo deles e em um instante se apagou, deixando um túnel igual ao olho de um furacão, onde eles caíram.

— Que lugar é esse? — Sandra perguntou, olhando ao redor. O lugar era desinteressante, uma sala escura, nenhuma saída à vista. A única iluminação vinha de uma tocha no centro. A luz da tocha formava um círculo no chão, que parecia feito de blocos de concreto.

— Um lugar seguro — disse Fred. — Só isso importa.

— Como nos trouxe aqui? — Adam perguntou.

— Uma flecha. Consegui com os Kanans. Atirei-a para baixo ao pular, e ela abriu a passagem.

— Os Kanans? — questionou Sandra. — Eles não são confiáveis. Não pensou que poderia ter nos matado?

— Mas estamos vivos, não? Se não pulássemos, morreríamos de qualquer jeito.

— Seja como for — disse Adam —, estou começando a achar que pegar o cálice foi uma má ideia. Talvez estejamos a salvo aqui, mas os devoradores estarão atrás de nós o tempo todo.

— Você sabia do risco quando decidiu fazer parte disso — disse Sandra —, agora não dá para voltar atrás. Estamos nessa até o fim.

— Eu sei, e lamento por isso. Maldita torre. Maldito cálice!

— Precisamos levar o cálice a Takkon — disse Fred.

— Como eu fui me meter nisso? — Adam falou para si. — Acho que agora não tenho escolha.

Fred fez um gesto rápido com as mãos sobre a chama ao centro da sala, apagando-a. No momento seguinte os três estavam de volta no deserto sob o penhasco. Não havia sinal de devoradores por perto, deveria levar algum tempo antes que os localizassem. Fred perguntou a Adam a localização de Takkon, e ele apontou a direção que deveriam tomar.

Percorreram o deserto em segurança por horas, quando um devorador saltou de lugar nenhum e agarrou a mão direita de Adam com os dentes. Quando Adam se soltou da criatura, seu mindinho havia sido arrancado.

O devorador correu de volta em sua direção e teve uma faca cravada na cabeça. Era a faca de Sandra, que a puxou de volta. A criatura não voltou a se mover.

— Você está bem? — Sandra perguntou.

Adam não respondeu. Estava de joelhos, segurando a mão ferida. Olhou para Sandra com uma expressão que dizia: Você tá de sacanagem?

— Deixa eu cuidar desse ferimento — Sandra jogou sua mochila no chão, ajoelhou-se ao lado de Adam e retirou dela uma caixa de primeiros socorros. Enfaixou a mão ferida, se levantou e colocou a mochila nas costas. — Precisamos nos apressar.

Eles percorreram o deserto por mais dez horas antes de alcançarem a base de uma montanha. Adam disse:

— Deve haver uma caverna por perto.

E havia. Fred a localizou, e eles entraram. O pouco de luz que entrava na caverna tornava possível enxergar bem no interior.

— Dizem que os devoradores não entram em cavernas — disse Sandra.

— Espero que seja verdade — Adam respondeu.

E era. Os três dormiram ali antes de seguirem adiante. Quando acordaram, eles se aprofundaram na caverna e seguiram por um longo túnel, até que saíram por uma fenda entre duas montanhas. A paisagem ao redor era coberta por uma vegetação rasteira, com duas ou três árvores à vista. Era difícil acreditar que estavam em um deserto antes de atravessar aquele túnel.

À frente estava um templo.

— O templo de Takkon! — exclamou Sandra. — Não acredito que é real!

— É mesmo incrível — respondeu Adam.

Sandra entregou o cálice a Fred, que subiu os degraus do templo e o colocou sobre o bloco de pedra no centro. Recitou as palavras escritas na pedra:

Nagen alipp takkon al mutan.

Um feixe de luz vermelha surgiu da boca do cálice e destruiu o teto do templo, estendendo-se até o céu. O feixe se transformou em uma ave escarlate, as penas como chamas.

— Quem ousa despertar Takkon, o imortal? — a voz da ave ecoou.

— Nós o despertamos — disse Fred.

— Apenas um pode ser o responsável! Diga quem!

— Eu pronunciei as palavras — Fred respondeu —, mas foi essa moça quem roubou o cálice — e apontando para Adam, disse: — E foi ele quem descobriu a localização do templo. Todos nós o despertamos!

— Acham que podem me enganar? — trovejou a ave. — Todos serão destruídos!

— Se um único indivíduo despertar o imortal — Adam falou.

— Este será punido com uma eternidade de sofrimento — Sandra continuou.

— E o mundo estará nas mãos do imortal — Fred concluiu. Silêncio. Por um momento, os três temeram por suas vidas. Acharam que o plano não funcionaria. Que, apesar do que dizia a lenda, os três ainda assim seriam destruídos.

— Não sabem com o que estão brincando — disse o imortal.

— Acham que estão salvando o mundo, não acham? Só estão rompendo a ordem natural das coisas. Se é isso mesmo o que querem, porém, eu não tenho escolha.

O imortal estendeu as asas e gritou como uma águia. Seus olhos emitiram uma luz vermelha que se depositou sobre eles, fazendo seus corpos brilharem.

Até então os três estavam incertos sobre o que aconteceria, pois a lenda era muito vaga. Agora que seus corpos mudavam de forma, tudo ficou claro. A pele de cada um deles ficou vermelha, seus rostos se tornaram caveiras brancas e agora eles não possuíam apenas dois, mas dezenas de olhos; pontos azuis salpicados no rosto. Eles se afastaram do templo e seguiram em seu caminho para a torre. Um deles falou:

— Vamos devorar alguns devoradores.



E agora, as “mais informações” que eu prometi:

Nada no contrato com a editora me impede de publicar o texto em meu blog, caso alguém esteja preocupado. Na verdade, nada no contrato me impede de colocá-lo sob licença Creative Commons, junto com os outros textos do blog. Isso significa que você, que está lendo esta postagem, pode ficar à vontade caso queira postar o conto em qualquer lugar na internet, desde que siga às regras da licença. (Deixar um link para o meu blog, de preferência acima do texto e diretamente para esta postagem; não modificar o texto e não utilizá-lo para fins comerciais.)

A capa do livro, por outro lado, pertence à editora. Não acredito que haja problema em postá-la também, no entanto. Eu só sou obrigado a avisar que não tenho nenhum direito sobre a capa.

O livro estará à venda na Livraria Cultura (se não me engano, somente pela internet), mas eu não sei quando. Me desculpe. Todas as cópias que foram vendidas até o momento, foram vendidas pelos próprios autores.

Pro caso de alguém estiver curioso para saber se eu gostei do livro: a resposta curta é sim. Como são muitos autores, é claro que o quanto eu gostei de cada conto varia muito; sendo que uns eu achei incríveis, e outros… bem. De qualquer forma, vale a pena comprar o livro (e não, eu não estou ganhando dinheiro com isso; todo o dinheiro que eu ganharia com o livro já foi ganho), nem que seja para ler apenas o primeiro conto, “Filhos do Tártaro”, da Letícia Lançanova. Peço desculpas para os outros autores, mas o conto da Letícia é simplesmente incrível. (Só não é *cof cof* melhor que o meu *cof cof*.)

E por fim, e mais importante que todo o resto, os agradecimentos:

À minha irmã, Flávia, por me apresentar a editora e por participar dos últimos estágios da revisão. Dois pontos importantes da narrativa foram modificados com sua ajuda.

À minha amiga Yasmin, por participar da primeira etapa da revisão. Boa parte do conto não faria muito sentido sem ela.

À minha outra amiga Patrícia, também por participar da primeira etapa da revisão. Sua ajuda trouxe uma maior consistência na forma como descrevi os cenários.

Ao pessoal que trabalha na editora.

A todas as pessoas que compraram o livro.

E, só pra ser bem clichê mesmo, a todos que leram esta postagem até aqui.

30 de novembro de 2012

NaNoWriMo

Eu pensei em fazer uma postagem sobre isso durante todo o mês de novembro, mas acabei enrolando até agora. Existe uma competição na internet chamada NaNoWriMo, ou National Novel Writing Month -- traduzindo livremente, é Mês Nacional de Escrever Romance, ou qualquer coisa assim.

O objetivo da competição é escrever um romance de no mínimo 50000 palavras durante o mês de novembro. Eu aproveitei a oportunidade para escrever uma história que está na minha cabeça desde os meus quatorze anos.

E eu consegui!

Estou bastante feliz com isso. Eu cheguei a 50105 palavras no dia 28 deste mês. Agora estou em 50173; não há mais o que acrescentar a história. Para quem não está acostumado a avaliar o tamanho de uma história de acordo com o número de palavras -- eu, pessoalmente, acho muito mais intuitivo -- isso são em média 150 páginas.

Começarei as revisões no meio de janeiro, e sabe-se lá quando vou terminar. Vamos ver no que isso vai dar.

Informações sobre o texto? Claro, aqui: http://nanowrimo.org/en/participants/quote-pilgrim/novels/um-lugar-vazio



P.S.: O editor de texto que eu usei se chama yWriter, e ele é incrível. Link: http://www.spacejock.com/yWriter5.html

30 de outubro de 2012

Camada Inferior

George dirigiu-se a seu cubículo, sentou-se à frente do computador e preparou-se para começar o trabalho quando um objeto chamou a sua atenção. Uma caixa preta repousava ao lado do monitor. Ele a pegou, examinou, tentou abri-la. Nada.

Olhou ao redor. Viu Sarah em seu cubículo, a cada poucos segundos ajeitando os óculos, como sempre fazia. Deveria perguntar a ela o que era aquela caixa – é claro que havia sido ela que a deixou ali: Sarah tinha o costume de deixar presentinhos depois de certos feriados. Não faria sentido se outra pessoa o tivesse feito.

No entanto, Sarah não sabia do que George estava falando. Ele a conduziu então ao seu cubículo e apontou para onde estava o objeto, sem olhar.

— De que caixa você está falando? — Ela perguntou.

— Você está dizendo que… — George começou a perguntar, ia dizer “não está vendo nenhuma caixa aqui?”, mas parou quando olhou na direção do monitor. Lá estava a caixa, inquestionável. Não havia como alguém deixá-la passar despercebida. Sem entender como podia a caixa ser invisível aos olhos de Sarah, mas sem querer parecer maluco, George girou a cabeça e olhou de volta para sua colega de trabalho, e falou:

— Que estranho… Eu tinha certeza que ela estava aqui. — E está. Ele ainda a vê bem onde a deixou. — Bem, acho melhor voltar ao trabalho.

Balançando a cabeça num sinal de concordância, e com um sorriso meio forçado mas ainda simpático, Sarah girou e caminhou em direção a seu cubículo.

George começou a trabalhar, mas não conseguiu se concentrar direito. O tempo todo a caixa permaneceu ali, desafiando a lógica. Ninguém mais a viu. Ele não conseguia parar de olhar para o objeto, abismado, confuso. Quando voltou para casa, porém, esqueceu-se por completo da presença da caixa, e a deixou ali, ao lado do monitor.

***
George estava tomando o seu café da manhã quando Carl apareceu na sala. Carl era um homem magro e alto, com os cabelos escuros sempre desgrenhados. George dividia o apartamento com ele.

— O que é essa coisa branca na mesa? — George perguntou, espetou um pedaço de ovo com um garfo e enfiou-o na boca.

— Que coisa branca? — Carl perguntou. George engoliu o pedaço de ovo.

— Essa aqui, bem no meio da mesa. É algum tipo de enfeite que você comprou?

— Você está sob efeito de alguma droga? Não tem nada aí.

George olhou para o centro da mesa. Um objeto de forma aparentemente cilíndrica repousava ali. Ao olhar com mais atenção, havia reparado que era na verdade um prisma de base hexagonal, um pouco retorcido no sentido horário; não era possível ignorar sua presença.

— Eu… pensei que tinha visto. Vamos esquecer isso. — George se levantou e levou seu prato para a pia.

— Tá certo. — Carl saiu sem dizer mais nada.

George olhou para o objeto. Pegou-o e olhou atentamente. Havia algo de estranho nele. Quando viu a caixa, notara que ela mais parecia uma silhueta do que uma caixa, como se a terceira dimensão a estivesse faltando. O prisma branco passava uma sensação não muito diferente. Ele considerou a possibilidade de estar alucinando, e decidiu que consultar um psicólogo não seria má ideia.

-
O primeiro psicólogo com quem ele conversou o alertou que seu problema deveria ser solucionado por um psiquiatra. George se recusou a acreditar que era um problema tão sério, mas foi ao consultório do psiquiatra que lhe fora recomendado mesmo assim.

Ele tomou os medicamentos que lhe foram prescritos, e em pouco tempo deixou de ver estranhos objetos irreais. Antes que os remédios fizessem qualquer efeito, ele havia visto uma pequena pirâmide, também negra, no mesmo lugar que caixa em seu cubículo. A caixa havia aparecido em sua casa dessa vez.

— Ainda vendo caixas por aí? — Perguntou Carl. George havia contado sobre a caixa preta quando ela apareceu pela segunda vez; não contou, no entanto, que havia consultado um psiquiatra cinco dias atrás.

Caixa, Carl. É uma só; eu só a vi duas vezes.

— Que seja. Pelo menos você não está mais delirando.

Delirar não era o verbo correto. Alucinando é o que Carl deveria ter dito. George pensou em corrigi-lo, mas mudou de ideia, e voltou os olhos para a televisão. Não havia nada de interessante passando, e ele pensou em pegar o controle para desligá-la. Talvez devesse ler aquele livro que havia começado já fazia uma semana, que já deveria ter terminado. Uma coisa na tela chamou sua atenção: um quadrado vermelho, no canto superior esquerdo. Quis perguntar a Carl sobre aquilo, mas ele havia deixado a sala. Mudou de canal algumas vezes, e o quadrado continuou ali; mesmo quando a tela se apagava entre um canal e outro, o quadrado persistia. Desligou a TV e o quadrado sumiu apenas dois ou três segundos depois. Quando a TV foi ligada novamente o quadrado não voltou.

Ele havia acabado de tomar alguns comprimidos, não fazia sentido que experimentasse outra alucinação agora.

***
— Me desculpe, mas eu não posso resolver o seu problema. — disse o médico — O que você tem não são alucinações.

— Se não são alucinações, o que mais pode ser? Estou sonhando acordado, ou algo assim?

— Não, Sr. Gardener. O que eu estou dizendo é que não há nada de errado com seu cérebro. Eu tenho um amigo que pode te ajudar, ele também é psiquiatra.

— Eu não entendo. Se eu não tenho nenhum problema, porque ainda tenho que consultar um psiquiatra?

O médico olhou para George por cima dos óculos redondos.

— O senhor tem um problema, Sr. Gardener. No entanto não é, digamos, um problema convencional. Este meu amigo é especialista em situações como a sua.

O psiquiatra se inclinou para frente e esticou o braço, entregando um pedaço de papel para George, que não havia visto de onde ele o tirou.

— Tome, este é o cartão de visita dele. Quanto mais cedo o senhor consultá-lo, melhor. — George pegou o cartão e enfiou no bolso da calça.

— Obrigado, doutor, — disse George, levantando-se e estendendo a mão, que o médico apertou — farei isso.

Menos de três horas mais tarde, ele estava no consultório do outro psiquiatra. O homem parecia uma caricatura de Freud.

— Você está experienciando a camada inferior da realidade — Disse Freud ao ouvir a história de George, que não conseguiu extrair nenhum sentido da frase.

— Como é? — foi tudo o que conseguiu dizer.

— A realidade não é apenas o que vemos ou sentimos, existe algo além disso. Graças à ciência podemos identificar algumas dessas coisas, como as partículas nos núcleos dos átomos. Outras são um mistério, e a camada inferior da realidade é uma delas.

— Camada inferior? Do que diabos você está falando!?

— Ninguém sabe o que é a camada inferior. Tudo o que sabemos é que está debaixo da realidade, e essa é a melhor explicação possível. Poucas pessoas conseguem perceber a camada inferior, e cada pessoa a percebe de forma diferente. Algumas veem objetos, outras escutam ruídos, algumas sentem cheiros, sabores ou estímulos táteis. E um número muito pequeno de pessoas sentem duas ou mais destas coisas ao mesmo tempo. Este é o seu caso.

— Fingirei por um momento que não estou escutando um monte de loucuras, e perguntarei: O que eu devo fazer para que isso pare?

— O que você precisa fazer é tentar entender o significado das suas experiencias com a camada inferior. Talvez eu possa te ajudar com isso.

George passou duas horas conversando com o clone de Freud, e imaginou que a maioria das coisas ditas por ele não serviriam para nada.

***
Ele estava perdido olhando para a caixa preta ao lado do monitor quando a viu mudar de forma. A caixa se esticou para cima, depois se espremeu até ficar fina como uma folha de papel; se enrolou numa esfera e então se dividiu em várias pequenas partes e ficou flutuando no ar. Prestando atenção, em muito se parecia com uma galáxia.

George estendeu a mão para a via láctea negra, mas não pode tocá-la. Ele puxou sua mão de volta quando viu que ela atravessou o objeto. Tentou voltar a trabalhar e ignorar o que estava vendo. Quando ele começou a digitar, a galáxia voltou a ser caixa.

-
George chegou em casa satisfeito por ter conseguido fazer o seu trabalho ao invés de ficar prestando atenção a um objeto que nem sequer estava lá. E, ao mesmo tempo, não conseguia parar de pensar na forma que a caixa assumira. Uma pequena galáxia negra.

Carl não estava no apartamento. George sentou-se na poltrona e ligou a televisão. Na mesa de centro estava um objeto que ele ignorou, supondo ser um daqueles que Freud alegava ser uma “experiência da camada inferior da realidade”. Depois de meia hora assistindo à TV, ele não resistiu e voltou seu olhar para sobre a mesa. O objeto era de um azul quase indistinto do branco; era esférico com a base achatada, que o permitia ficar parado. Tendo a aparência do objeto fixada à mente, George voltou a assistir TV.

-
Quando Carl entrou no apartamento, a televisão estava desligada e George segurava a esfera azul nas mãos, os olhos fixos no objeto.

— O que você tá fazendo com isso? — Carl perguntou.

— Ah! Então você está vendo?

— Do que você tá falando? É claro que eu estou vendo, eu comprei isso aí. Você anda muito estranho ultimamente. — Carl havia trazido algumas sacolas e as deixou no balcão que dividia o apartamento ao meio, separando a cozinha da sala.

— Ah… — disse George. Ele não pensou em perguntar sobre o objeto. Colocou-o de volta no lugar e dirigiu-se a seu quarto. — Acho que eu preciso dormir um pouco. — Disse, enquanto fechava a porta.

— Eu fiz as compras! — Carl exclamou. Como resposta houve apenas um murmúrio do quarto.

Quando George se deitou, viu um objeto no criado-mudo. O objeto não era em nada diferente daquele que vira na sala. Aquele Carl não poderia ter comprado, ele pensou; Carl nunca entrava em seu quarto. George pegou o objeto e começou a analisá-lo, mas nada de interessante aconteceu.

Dormiu.

-
Ao acordar George olhou para o relógio ao lado do objeto irreal e viu que eram quatro horas da manhã. Ficou olhando para o objeto, sem pensar em mais nada. O objeto mudou de forma e de cor, virando uma fumaça escura. A fumaça não se espalhou pelo quarto. Por um instante, George pensou ter compreendido algum segredo profundo da realidade. Pensou ter visto a solução para algum mistério do universo, que pareceu-lhe tão óbvia que teve de se perguntar como era possível que ninguém tivesse pensado nisso antes.

Então o objeto voltou à sua forma original, levando a compreensão embora.

George olhou para o relógio mais uma vez, e percebeu que estava quase na hora de sair para trabalhar. Se vestiu para sair e começou a preparar o café da manhã. Comeu, pegou a maleta, e saiu.

No trabalho, viu a caixa preta novamente – a caixa parecia gostar daquele lugar –, e fez o possível para ignorá-la. Funcionou até quarenta minutos antes do fim do horário de trabalho, quando ele olhou para caixa por pelo menos dez minutos seguidos antes que ela mudasse de forma.

Para a surpresa de George, ela não se transformou em galáxia negra. Ao invés disso, tornou-se uma esfera alaranjada brilhante, talvez uma estrela. Uma compreensão profunda se apossou de sua mente mais uma vez, e ele não conseguiu suportá-la, então olhou para o outro lado. Uma mão pousou em seu ombro, e ele teve um sobressalto.

— Você está bem? — A voz era de Sarah.

— O quê?

— Você estava com as mãos na cabeça, e com uma expressão horrível. Parecia que sua cabeça estava prestes a explodir.

— Estava? — ele perguntou. Não conseguia pensar direito. — Eu… Acho que estou bem agora.

— Você está estranho, George. Talvez precise de uma folga.

— Não. Eu estou bem, juro.

Sarah deu um suspiro, e andou de volta para seu cubículo.

— Eu estou bem. — Ele sussurrou, falando com ele próprio.

Quando dirigia de volta para o prédio onde morava, George viu um triângulo negro em seu para-brisa. Teve de ignorá-lo até estacionar.

Com o carro parado, ele olhou para o triângulo. Havia percebido que apenas olhar não era o suficiente. Ele precisava se concentrar no objeto, precisava prestar atenção nele. Em poucos segundos o triângulo se espalhou pelo vidro, formando uma imagem abstrata colorida.

Uma compreensão se formou em sua mente. Era difícil suportá-la, mas George continuou se concentrando.

A imagem no vidro desapareceu. George saiu do carro e voltou para o apartamento o mais rápido possível. Ele precisava escrever antes que aquela informação se apagasse de sua mente.

Escreveu sem parar por uma hora. Era pouco, ele precisava de mais, porém não conseguiu. Perto dos papeis em que acabara de escrever, viu três objetos. A caixa preta, o prisma retorcido, a esfera achatada. Olhou para eles, se concentrou. A pressão gerada pela concentração o fez desmaiar.

George acordou alguns minutos depois, no chão do quarto. Levantou-se, evitou olhar para os objetos, e deitou na cama.

***
— Como está se sentindo? — Carl perguntou.

— Melhor do que nunca. — George respondeu, e espetou um pedaço de ovo com o garfo.

— Por que eu só vejo você comendo ovo?

— Não sei. Por que pergunta?

— Por nada. — Carl disse, e saiu.

George terminou de comer e foi para o quarto, não iria trabalhar neste dia. Sentou-se à escrivaninha e olhou para a esfera achatada, até que ela assumiu a forma de fumaça de antes. Começou a escrever e não parou mais.

Um dia inteiro se passou, e George não havia percebido. Depois do amanhecer, ele ainda estava escrevendo, e continuou por mais algumas horas.

Houveram batidas na porta. E a voz de Carl surgiu, dizendo:

— Ei, George! Você está bem?

— Estou. — Ele respondeu — Por quê?

— Você ainda pergunta? Já passam das onze, você não tomou café da manhã e não foi trabalhar.

— Eu não vou trabalhar hoje.

— Por que não? Você não disse que estava bem?

— E estou, mas não vou trabalhar.

— Por quê?

— Eu não quero. Por isso.

Carl não disse mais nada. Sabia que não adiantaria ficar discutindo.

-
Na manhã do dia seguinte, Carl bateu na porta do quarto de George novamente. Não houve resposta. Bateu mais algumas vezes.

— Eu estou bem.

— Não vai tomar seu café da manhã?

— Não preciso.

Vinte minutos depois, Carl entrou no quarto. George se virou para ele, e perguntou:

— O que você está fazendo?

Carl colocou um prato de comida perto dos papéis, e respondeu:

— Eu não ligo se você não quer trabalhar. Mas é melhor que você tenha comido isso quando eu voltar. — Então ele deixou o quarto e fechou a porta.

Carl voltou pouco depois do anoitecer. Ao abrir o quarto de George, não pode deixar de gritar.

Havia comida e cacos de vidro espalhados pelo quarto. George estava debruçado imóvel sobre um monte de papéis, e Carl pensou por um segundo que ele poderia estar morto. Ele se aproximou, pegou a mão de George e sentiu o pulso – estava vivo. Carl tentou acordá-lo, mas não conseguiu, então deitou-o na cama. Limpou a bagunça, sentou-se e pegou o monte de papéis sobre a escrivaninha. Leu cada palavra, passando a noite inteira ali.

Tão logo George acordou, Carl perguntou:

— De onde vem tudo isso?

— Está escrito. — George respondeu — Vem da camada inferior da realidade.

— Mas isso é um absurdo. O que está escrito aqui explica quase tudo o que ainda não entendemos sobre o universo. Mas essa parte, sobre a camada inferior, não faz o menor sentido.

— Não importa. É a verdade.

— Ninguém ia acreditar nisso.

— Acho que você tem razão.

Depois de alguns minutos, Carl convenceu George a revisar aquele texto e remover todas as menções à camada inferior. George só conseguiu fazer a revisão meses depois.

Semanas depois, George conseguiu que o texto fosse publicado como um artigo científico, pelo qual mais tarde ganharia um Nobel de Física. Quando perguntavam como ele havia feito suas descobertas, ele respondia, brincando, que se fosse possível explicar uma coisa como essa, Einstein teria ensinado a todos como ser um gênio.

Durante os anos restantes de sua vida, George procurou conseguir novas experiências com a camada inferior da realidade, mas jamais obteve outra. Com frequência ele pegava qualquer objeto que estivesse a seu alcance e observava, se concentrando. Quando dormia, agarrava em sua mão direita uma caixa preta que ele havia conseguido. Agarrava-a com tamanha força que ninguém a conseguiria remover dali.

-Comentários do Autor-

Esse texto é longo demais para publicar em uma postagem só? Espero que não.

Este conto passou por uma revisão. (E eu pretendo revisar mais coisas antes de postar aqui.) Eu o enviei para uma moça que disse que eu poderia publicá-lo como está, então eu meio que confiei nela. No entanto, é possível que eu venha a fazer uma segunda e talvez uma terceira revisão – essa é a beleza de publicar na internet, eu posso modificar o que eu quiser quando quiser. Caso eu faça outra(s) revisão(ões), deixarei uma nota no topo da postagem.

Este conto é o primeiro de uma série; cada um com personagens e histórias diferentes, mas com um aspecto em comum, que é o fato de serem contos que envolvem uma camada inferior da realidade. Não faço a menor ideia de quantos contos serão, no total. Mas pretendo escrever não menos de cinco.

24 de agosto de 2012

Twenty Thirteen on Scribd

Eu estou fazendo esta postagem para avisar que finalmente terminei de revisar o conto “Dois Mil e Treze” e o postei no Scribd.

Eis o link: http://www.scribd.com/doc/103811291/Dois-Mil-e-Treze


A revisão não está tão completa quanto eu esperava/gostaria. No geral eu só removi umas palavras desnecessárias, e mudei apenas dois ou três pedaços da história em si. Então é possível que eu venha a fazer novas revisões no futuro.

Ah, sim. Eu não postei a revisão apenas no Scibd. Se você olhar as postagens do conto aqui no blog, verá que todas têm o aviso “Atualizado em 24 de Agosto de 2012.”.

30 de abril de 2012

Do Topo de uma Torre

Antes de mais nada, eu quero explicar como o texto abaixo surgiu. Eu não gosto de comentar os meus textos antes do texto propriamente dito; no entanto, neste caso, é importante.

O texto abaixo foi escrito no dia 22 de abril, como uma postagem no serviço 750words, no qual eu me inscrevi no dia 19 de abril e venho escrevendo todos os dias, seguindo a regra de escrever no mínimo 750 palavras por dia – nos últimos dez dias, eu escrevi mais de 8 mil palavras. O objetivo é se acostumar com o hábito de escrever todos os dias e ajudar as ideias a fluírem naturalmente. É um ótimo serviço, e eu recomendo muitíssimo. Tudo o que você escreve lá é completamente privado, mas você pode compartilhar algumas estatísticas.

38 minutos foi o tempo que levou para escrevê-lo.

O texto veio naturalmente, sem que eu fizesse nenhum tipo de pesquisa e nem sequer pensasse sobre o que eu iria escrever antes de começar o ato, de forma que o final me surpreendeu um pouco. Exceto pelo fato de eu ter corrigido dois ou três erros de digitação já depois de colá-lo no editor de postagens do Blogger hoje, o texto não passou por nenhum tipo de revisão. Não é o meu primeiro texto não revisado e não será o último, mas eu acho importante dizer isso, visto que eu nunca escrevi nada (que valesse a pena ler ou mesmo ser escrito) tão rápido. 38 minutos.

O texto segue abaixo.


Acabo de acordar no topo de uma torre. Ao meu redor não há nada além de um extenso deserto avermelhado, com algumas montanhas aqui e ali. Eu não consigo mover meus braços, ou minhas pernas, e também não consigo falar. Mas posso mover minha cabeça e ver a paisagem; o topo da torre está rodeado de estruturas de pedras que parecem presas. Se houver qualquer coisa atrás de mim, eu não posso ver. Eu estou de joelhos, e eles estão doendo um pouco.

Eu queria saber como sair daqui.

Estou ouvindo um zumbido. Este som lembra um inseto voando perto dos meus ouvidos, mas não há nenhum inseto à vista. Não há nenhuma vida a vista em lugar nenhum; somente eu.

O ar fede a enxofre. Esse lugar poderia até ser o inferno, e eu teria de permanecer aqui pela eternidade. Eu não consigo pensar em nada que explique a situação em que eu estou. Eu poderia até aceitar a ideia de que eu vim parar no inferno, mas há duas coisas que me impedem de pensar isso: a primeira é que eu não me lembro de ter morrido e, a segunda e mais importante, é que eu não acredito que o inferno existe.

A minha respiração está estranha. A sensação do ar é diferente de qualquer coisa que eu poderia descrever. É difícil inspirar essa atmosfera e, ao mesmo tempo, expirar esse ar é tão fácil que até parece que ele está saindo sozinho. Independente do quão esquisito seja esse ar, parece claro que deve haver oxigênio nele. Sinto o chão tremendo. Parece que a torre vai cair. É impossível descrever o terror que estou sentindo.

A torre não desmorona. Nada acontece.

Olho para cima. O céu também é avermelhado, e não tem nenhuma nuvem. Olhando mais uma vez ao redor, noto que algumas montanhas ao horizonte têm uma incrível semelhança com pirâmides. Há duas – não, três montanhas assim. Esse lugar me é familiar, mesmo que eu nunca tenha estado aqui.

Acabei de pensar numa coisa maluca. Talvez o ar não tenha oxigênio, talvez a minha respiração tenha sido mudada de alguma forma, para que eu pudesse respirar aqui. Tenho uma quase-certeza de que eu sei onde eu estou, embora seja incapaz de dizer o nome desse lugar. Tento me mover novamente, nada.

Sinto outro tremor, e depois de um tempo o chão se abre atrás de mim. Ou eu penso que ele se abre. Um ser passa pela minha direita, e continua andando até ficar diante de mim, olhando para meu rosto. Começo a imaginar como está meu rosto, penso que ele deve estar sujo da terra avermelhada desse deserto imenso. O ser parado na minha frente é muito parecido com um ser humano, porém possui a pele de uma cor ligeiramente esverdeada, mas que é quase que um cinza escuro. Ele não possui nenhum cabelo, e está vestindo nada além de algo que muito se parece com uma saia. Se eu fosse dar um palpite baseado na sua anatomia, diria que é um indivíduo do sexo masculino.

De repente, me levanto. É involuntário, eu não escolhi levantar mas apenas o fiz. Só agora que estou de pé percebo o quão alto é o... o... droga, uma palavra passou pela minha cabeça, mas foi tão rápido que não pude fisgá-la... O alienígena, como o chamarei por não saber que palavra usar, mede quase três metros de altura. Dando uma boa olhada no seu rosto, vejo que ele não tem nariz, mas parece possuir narinas bem pequenas no lugar.

Ele me faz dar meia-volta. Nesta parte da paisagem que eu não havia antes visto, há uma montanha tão grande que dá medo. Mesmo tendo visto o monte Everest de perto, o tamanho daquela montanha me horrorizou.

O chão se abriu diante de mim, e eu dei dois passos involuntários adiante, caindo no buraco. Na verdade, eu não caí, pois há um solo liso apenas alguns centímetros abaixo da abertura que aperecera. Esse solo parece feito de metal, ainda que tenha a mesma cor da terra ao redor. O alienígena também desceu ao solo liso, e houve mais um tremor.

Eu estou descendo junto com o chão, enquanto tudo treme. O buraco se fechou, me deixando numa escuridão implacável por alguns segundos, até que algumas luzes se acendem.

Dentro da torre, eu estou descendo junto com aquele estranho ser por um túnel de paredes prateadas, onde eu posso ver meu reflexo. Meu rosto está mesmo sujo com aquela terra avermelhada. A terra avermelhada de Marte.


–(Mais) Comentários do Autor–

Há algumas coisas que precisam ser esclarecidas. Quando eu comecei a escrever o texto, eu não estava pensando em Marte, mas a ideia surgiu cedo o bastante para eu ter escrito alguns pequenos detalhes que davam esta pista. Mas existem alguns problemas. Um deles é o cheiro que eu dei para o ar. A atmosfera de Marte provavelmente cheira a ferrugem. Outra coisa é a cor da terra de Marte. OK, eu já li e ouvi em vários lugares que a terra de lá é avermelhada, no entanto na maioria das fotos que eu já vi do planeta, ela não parece exatamente vermelha – e isso me incomoda um pouco.

O meu wallpaper atual, inclusive, é uma imagem do Monte Olimpo (o maior vulcão do sistema solar, com 22 km de altura), em Marte, e o solo tem uma cor muito acinzentada/esbranquiçada e que se parece, na melhor das hipóteses, com marrom.

E já que eu falei no Monte Olimpo, tem o outro problema: eu não fazia ideia de qual é a distância entre o vulcão e a região de Cydonia quando eu escrevi o texto, então o fato desta distância estar relativamente correta no conto foi pura sorte.