Mas, ei, já é alguma coisa. Bem, o livro em questão se chama “Quimera”, da Andross Editora. Segue abaixo uma imagem da capa do livro, o conto que eu escrevi e, depois, mais algumas informações.
![]() |
| Né por nada não, mas de todos os livros que eu possuo, esse tem a capa mais legal. |
Nós o Despertamos
Adam virou-se e viu a torre.
Apenas alguns segundos depois ele se deu conta de que devia sair dali o mais rápido possível e então voltou a correr.
— O que foi aquilo, cara? — perguntou Sandra. Havia um cálice dourado em sua mão direita. — Você está tentando ser comido?
— Me desculpe! — Adam gritou. — Aquela torre exerce um efeito esquisito sobre a gente, às vezes não dá pra não olhar!
As criaturas se aproximavam deles. Ágeis homenzinhos de pele azul escura. Os rostos, máscaras brancas salpicadas dos pontos vermelhos que eram os olhos. Olhos famintos por carne humana. Aproximaram-se mais.
Fred, que estava na frente, gritou:
— Penhasco!
— O quê? — Sandra perguntou.
— Penhasco! — Fred repetiu.
— Diacho! — Adam exclamou. Os três chegaram à borda e observaram o deserto abaixo. — O que a gente faz agora?
— Pula! — disse Fred.
— O quê? — disse Sandra. — Você está louco!
— Não vamos sobreviver a uma queda dessas — disse Adam.
— Não há tempo para discutir, apenas pulem!
Fred pulou primeiro. Sandra e Adam decidiram que era melhor que serem devorados, e então o acompanharam.
Fred caiu com o corpo na horizontal. Adam e Sandra ficaram em uma posição vertical, quebrando a resistência do ar, e o alcançaram.
— Nós vamos morrer! — Sandra gritou.
— Não vamos — Fred respondeu.
— Tem razão! — exclamou Adam. — Já estamos mortos.
— Por que não confiam em mim só por um instante?
Os três estavam a ponto de atingir o chão. Adam imaginou todos os seus ossos se esmigalhando, quando uma luz cegante surgiu abaixo deles e em um instante se apagou, deixando um túnel igual ao olho de um furacão, onde eles caíram.
— Que lugar é esse? — Sandra perguntou, olhando ao redor. O lugar era desinteressante, uma sala escura, nenhuma saída à vista. A única iluminação vinha de uma tocha no centro. A luz da tocha formava um círculo no chão, que parecia feito de blocos de concreto.
— Um lugar seguro — disse Fred. — Só isso importa.
— Como nos trouxe aqui? — Adam perguntou.
— Uma flecha. Consegui com os Kanans. Atirei-a para baixo ao pular, e ela abriu a passagem.
— Os Kanans? — questionou Sandra. — Eles não são confiáveis. Não pensou que poderia ter nos matado?
— Mas estamos vivos, não? Se não pulássemos, morreríamos de qualquer jeito.
— Seja como for — disse Adam —, estou começando a achar que pegar o cálice foi uma má ideia. Talvez estejamos a salvo aqui, mas os devoradores estarão atrás de nós o tempo todo.
— Você sabia do risco quando decidiu fazer parte disso — disse Sandra —, agora não dá para voltar atrás. Estamos nessa até o fim.
— Eu sei, e lamento por isso. Maldita torre. Maldito cálice!
— Precisamos levar o cálice a Takkon — disse Fred.
— Como eu fui me meter nisso? — Adam falou para si. — Acho que agora não tenho escolha.
Fred fez um gesto rápido com as mãos sobre a chama ao centro da sala, apagando-a. No momento seguinte os três estavam de volta no deserto sob o penhasco. Não havia sinal de devoradores por perto, deveria levar algum tempo antes que os localizassem. Fred perguntou a Adam a localização de Takkon, e ele apontou a direção que deveriam tomar.
Percorreram o deserto em segurança por horas, quando um devorador saltou de lugar nenhum e agarrou a mão direita de Adam com os dentes. Quando Adam se soltou da criatura, seu mindinho havia sido arrancado.
O devorador correu de volta em sua direção e teve uma faca cravada na cabeça. Era a faca de Sandra, que a puxou de volta. A criatura não voltou a se mover.
— Você está bem? — Sandra perguntou.
Adam não respondeu. Estava de joelhos, segurando a mão ferida. Olhou para Sandra com uma expressão que dizia: Você tá de sacanagem?
— Deixa eu cuidar desse ferimento — Sandra jogou sua mochila no chão, ajoelhou-se ao lado de Adam e retirou dela uma caixa de primeiros socorros. Enfaixou a mão ferida, se levantou e colocou a mochila nas costas. — Precisamos nos apressar.
Eles percorreram o deserto por mais dez horas antes de alcançarem a base de uma montanha. Adam disse:
— Deve haver uma caverna por perto.
E havia. Fred a localizou, e eles entraram. O pouco de luz que entrava na caverna tornava possível enxergar bem no interior.
— Dizem que os devoradores não entram em cavernas — disse Sandra.
— Espero que seja verdade — Adam respondeu.
E era. Os três dormiram ali antes de seguirem adiante. Quando acordaram, eles se aprofundaram na caverna e seguiram por um longo túnel, até que saíram por uma fenda entre duas montanhas. A paisagem ao redor era coberta por uma vegetação rasteira, com duas ou três árvores à vista. Era difícil acreditar que estavam em um deserto antes de atravessar aquele túnel.
À frente estava um templo.
— O templo de Takkon! — exclamou Sandra. — Não acredito que é real!
— É mesmo incrível — respondeu Adam.
Sandra entregou o cálice a Fred, que subiu os degraus do templo e o colocou sobre o bloco de pedra no centro. Recitou as palavras escritas na pedra:
— Nagen alipp takkon al mutan.
Um feixe de luz vermelha surgiu da boca do cálice e destruiu o teto do templo, estendendo-se até o céu. O feixe se transformou em uma ave escarlate, as penas como chamas.
— Quem ousa despertar Takkon, o imortal? — a voz da ave ecoou.
— Nós o despertamos — disse Fred.
— Apenas um pode ser o responsável! Diga quem!
— Eu pronunciei as palavras — Fred respondeu —, mas foi essa moça quem roubou o cálice — e apontando para Adam, disse: — E foi ele quem descobriu a localização do templo. Todos nós o despertamos!
— Acham que podem me enganar? — trovejou a ave. — Todos serão destruídos!
— Se um único indivíduo despertar o imortal — Adam falou.
— Este será punido com uma eternidade de sofrimento — Sandra continuou.
— E o mundo estará nas mãos do imortal — Fred concluiu. Silêncio. Por um momento, os três temeram por suas vidas. Acharam que o plano não funcionaria. Que, apesar do que dizia a lenda, os três ainda assim seriam destruídos.
— Não sabem com o que estão brincando — disse o imortal.
— Acham que estão salvando o mundo, não acham? Só estão rompendo a ordem natural das coisas. Se é isso mesmo o que querem, porém, eu não tenho escolha.
O imortal estendeu as asas e gritou como uma águia. Seus olhos emitiram uma luz vermelha que se depositou sobre eles, fazendo seus corpos brilharem.
Até então os três estavam incertos sobre o que aconteceria, pois a lenda era muito vaga. Agora que seus corpos mudavam de forma, tudo ficou claro. A pele de cada um deles ficou vermelha, seus rostos se tornaram caveiras brancas e agora eles não possuíam apenas dois, mas dezenas de olhos; pontos azuis salpicados no rosto. Eles se afastaram do templo e seguiram em seu caminho para a torre. Um deles falou:
— Vamos devorar alguns devoradores.
—
E agora, as “mais informações” que eu prometi:
Nada no contrato com a editora me impede de publicar o texto em meu blog, caso alguém esteja preocupado. Na verdade, nada no contrato me impede de colocá-lo sob licença Creative Commons, junto com os outros textos do blog. Isso significa que você, que está lendo esta postagem, pode ficar à vontade caso queira postar o conto em qualquer lugar na internet, desde que siga às regras da licença. (Deixar um link para o meu blog, de preferência acima do texto e diretamente para esta postagem; não modificar o texto e não utilizá-lo para fins comerciais.)
A capa do livro, por outro lado, pertence à editora. Não acredito que haja problema em postá-la também, no entanto. Eu só sou obrigado a avisar que não tenho nenhum direito sobre a capa.
O livro estará à venda na Livraria Cultura (se não me engano, somente pela internet), mas eu não sei quando. Me desculpe. Todas as cópias que foram vendidas até o momento, foram vendidas pelos próprios autores.
Pro caso de alguém estiver curioso para saber se eu gostei do livro: a resposta curta é sim. Como são muitos autores, é claro que o quanto eu gostei de cada conto varia muito; sendo que uns eu achei incríveis, e outros… bem. De qualquer forma, vale a pena comprar o livro (e não, eu não estou ganhando dinheiro com isso; todo o dinheiro que eu ganharia com o livro já foi ganho), nem que seja para ler apenas o primeiro conto, “Filhos do Tártaro”, da Letícia Lançanova. Peço desculpas para os outros autores, mas o conto da Letícia é simplesmente incrível. (Só não é *cof cof* melhor que o meu *cof cof*.)
E por fim, e mais importante que todo o resto, os agradecimentos:
À minha irmã, Flávia, por me apresentar a editora e por participar dos últimos estágios da revisão. Dois pontos importantes da narrativa foram modificados com sua ajuda.
À minha amiga Yasmin, por participar da primeira etapa da revisão. Boa parte do conto não faria muito sentido sem ela.
À minha outra amiga Patrícia, também por participar da primeira etapa da revisão. Sua ajuda trouxe uma maior consistência na forma como descrevi os cenários.
Ao pessoal que trabalha na editora.
A todas as pessoas que compraram o livro.
E, só pra ser bem clichê mesmo, a todos que leram esta postagem até aqui.
