1 de março de 2011

A Cidade - Parte V [FINAL]

(Atualizado em 8 de Setembro de 2012.)

A Cidade já estava quase vazia, mas ainda haviam nela alguns habitantes vivos; e nós iríamos impedir a morte deles. Porque por mais que que o número de sobreviventes fosse pequeno, eles eram o que nós estávamos procurando salvar. Eles eram A Cidade.

Desde pouco antes do desaparecimento de Edgard, o número de aliens começou a cair. Ao mesmo tempo, eles pareciam cada vez mais ágeis e mais resistentes. Estava cada vez mais difícil matá-los.

Mas nós conseguimos.

Sim. O dia em que derrotaríamos todos eles finalmente havia chegado.

Nós permanecemos na casa por algum tempo; observávamos A Cidade, estávamos atentos para o caso de mais deles aparecerem. Mas não apareceram. Então, depois de alguns dias, nós fomos ao porão para pegar o que havíamos deixado lá dentro. Do lado de fora – embora não pudéssemos ver – o Sol ainda brilhava naquele dia. Então, veio o enjoo – olhei para Jasmin, depois para Bruna; seus rostos diziam que elas também estavam sentindo. Não tinha como não estarem, afinal, estava mais forte do que nunca. Avisei a Débora e Leonardo, e disse que sabia exatamente onde esse alien estava – embora isso fosse impossível, visto que o enjoo só me dava uma vaga ideia da proximidade dessas criaturas, e não sua localização exata; desta vez, no entanto, foi o que aconteceu, ele estava naquele lugar. Subimos as escadas para o andar de cima da casa, e paramos na frente da porta do quarto. O último lugar onde Rafael havia estado. Abrimos a porta.

A criatura que estava lá dentro era gigantesca, e não se parecia em nada com os outros que havíamos visto até então; sua forma era incompreensível, mas parecia mais com um árvore do que com um ser humanoide; possuía algo como raízes espalhadas por todo o quarto, e vários tentáculos que se moviam no ar. Aquele ser era tão enorme que o o próprio quarto parecia dezenas de vezes maior do que era antes. Era o líder deles.

Naquele instante, a criatura se comunicou com a gente, por telepatia; seus tentáculos repousaram. Sua voz parecia muito familiar, porém eu jamais saberia dizer de onde a conhecia. Não me lembro de muita coisa do que ele disse, mas lembro da sensação de asco que sua voz causava, de como o simples fato de ouvi-la fazia eu me sentir um ser sujo, impuro. E também me lembro do ódio que senti ao ouvir como falava sobre Karen e Rafael; sobre o prazer que sua raça sentia quando faziam... o que faziam com suas vítimas.

Por um segundo, a criatura pareceu brilhar, então o enjoo ficou insuportável. Bruna desmaiou ao mesmo tempo em que eu caí de joelhos no chão. Uma fração de segundo antes que eu desmaiasse, pude ver Jasmin caída, com uma das mãos sobre o estômago.

***

Quando recobrei a consciência, Leonardo me ajudou a me levantar; Jasmin já estava de pé, e Débora ajudava Bruna a se levantar. O enjoo tinha acabado, e eu me sentia mais forte do que nunca. A criatura ainda estava lá, imóvel, como se estivesse esperando que todos estivessem prontos. Seus tentáculos saíram do repouso. Mais rápido que meus olhos podiam ver, um deles agarrou Bruna e começou sacudi-la no ar; ao mesmo tempo, Leonardo correu na direção da criatura com um cano de metal e começou a bater-lhe freneticamente. Com algum objeto – que não me lembro mais o que era – eu consegui cortar o tentáculo que segurava Bruna, e logo comecei a tentar cortar os outros.

De onde eu estava, não pude ver direito o que Débora fazia; parecia estar tentando arrancar algo do centro do corpo do alien e, agora que estava livre, Bruna correu eu sua direção, de certo para ajudá-la. Jasmim havia desaparecido do meu campo de visão, então andei ao redor do corpo da criatura. Lá estava ela, tentando subir naquela coisa – tentando escalá-la seria mais adequado dizer, devido a suas proporções gigânticas. Então eu vi aquilo. Não consigo explicar o quão aterrorizante era aquilo; algo pulsando, de forma lenta e constante, bem no topo do alien. Era mais horroroso do qualquer coisa que eu já tivesse visto. Jasmin conseguiu alcançar a coisa pulsante e a apunhalou pelo menos umas quinze vezes, com algo que parecia uma faca, antes que aquilo explodisse num jorro inacreditável de sangue, que atingiu tudo que estava dentro do quarto. O corpo da criatura começou a murchar. Acabou.

Mas nada disso aconteceu.

Foi tudo um grande delírio que eu tive enquanto inconsciente. Quando acordei, vi diante de mim Leonardo, Jasmin e Débora. Eles estavam – assim como eu – sujos com aquele sangue de cor incompreensível, mas que de alguma forma parecia quase-vermelho. O choque que tive ao ver que todo o quarto estava sujo de sangue da mesma forma que no fim do delírio que tive enquanto estava inconsciente foi tão grande que eu quase desmaiei novamente. Perguntei onde estava Bruna. Débora e Jasmin permaneceram imóveis, Leonardo apenas abaixou sua cabeça e a moveu em direção a um dos cantos do quarto. O corpo dela estava invisível, escondido por uma camada grossa e semi coagulada do sangue daquela criatura. Estava morta.

Leonardo explicou o que aconteceu.

Ele e Débora foram obrigados a lutar sozinhos com o alien. Visto que não conseguiram me acordar, e não conseguiram acordar Jasmin. Bruna já estaria morta – acredito que o enjoo a atingiu de tal forma que, ao invés de apenas fazê-la desmaiar, como aconteceu com Jasmin e comigo, acabou a matando. A história que Leonardo contou era, em todos os detalhes que era possível, igual ao meu delírio. Diferente apenas no fato de que um de nós morreu.

Agora, sim, acabou.

Ou melhor, acabou para A Cidade. Para nós… para os que sobraram de nós, isso jamais irá acabar. Tudo o que vimos e vivemos, durante e depois de toda essa história, nos mostrou que criaturas assim sempre existiriam, e sempre foram responsáveis por uma porcentagem significativa de mortes de seres humanos. Todos estes monstros que você vê na televisão surgiram de seres reais, que ficam escondidos nas sombras e raramente se revelam. Mesmo estes que nós nos acostumamos a chamar de aliens, na verdade, sempre estiveram neste planeta. Eles nasceram aqui.

Deixamos a casa. Encontramos os sobreviventes de nossas famílias; e as famílias dos nossos parceiros falecidos. Aos poucos, os que fugiram começaram a voltar para A Cidade; e novos habitantes chegaram. A Cidade foi salva. Mas nós jamais teríamos vidas normais. Não estamos mais apenas na Cidade, não somos mais apenas quatro pessoas. Somos centenas, milhares, espalhados pelo mundo todo, assim como essas criaturas das trevas. E, onde houver uma destas criaturas caçando um ser humano, um de nós estará lá para caçá-la.


-Comentários do Autor-

É isso aí, acabou.

Muitos livros que eu li exerceram alguma influência sobre este conto quase-de-terror que você acabou de ler (que era algo que eu estava tentando evitar). A maioria deles eram livros do Stephen King, dos quais o que me influenciou com mais força foi o último que eu li até hoje: Salem's Lot (A Hora do Vampiro). OK, OK, este meu conto não tem nenhum vampiro; mas sim, Salem's Lot acabou influenciando alguns aspectos muito importantes do conto, apesar das diferenças óbvias. OK, já disse de qual livro eu estava falando na outra postagem, o que mais eu queria dizer, mesmo?

Ah, sim. Eu não acho que este seja o melhor conto que eu já escrevi, muito pelo contrário. No entanto, eu fiquei especialmente feliz com o resultado desta última parte que, creio eu, acaba compensando a falta de qualidade de todo o resto.

3 comentários:

  1. O meio do conto deu um UP
    tão grande que ao invés de ler,fazer algo e depois ler o resto, li tudo de uma vez.
    Ficou fantástico.=D

    ResponderExcluir
  2. Guri, não aborte este blog ATÉ EU COMEÇAR A LER OS TEUS CONTOS! Depois que eu ler, você desiste e continua a postar. :P

    ResponderExcluir