(Atualizado em 24 de Agosto de 2012.)
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MARÇO.
Marco saiu de casa para passear. Para pensar um pouco. Ele não conseguia pensar dentro de casa, não era o seu lugar favorito. Andou pelas ruas vazias. As coisas mais parecidas com rostos que ele via eram a parte da frente de alguns carros parados à frente das casas.
Carros voadores.
Ele se perguntou como era possível que carros voadores tenham substituído por completo os carros convencionais em um período tão curto de tempo. Parecia irreal demais para ser verdade – como todo o resto. Era verdade.
Por que aqueles carros estavam parados ali? Porque ninguém os dirigia? Carros voadores… não era isso que todo mundo queria? Como é possível que todos os tenham deixado de lado?
Os carros não eram o que perturbava Marco. Eles não eram a coisa mais incrível que havia sur…
— Ei! Marco! — gritou uma garota, interrompendo seus pensamentos. Ela estava bem longe, e foi correndo em sua direção. Era Joanne, 18 anos, melhor amiga de Marco.
— Ah, oi Joanne, há quanto tempo? — perguntou, apático — Nossa. Como você mudou.
— Não seja bobo… A gente se viu ontem! Porque você sempre faz isso quando a gente se encontra? — ela perguntou
— Isso o quê. — disse Marco. Era uma pergunta sem interrogação.
— Isso aí que você tá fazendo. Agindo como se… Ah! Deixa pra lá.
“Agindo como se não tivesse emoção”, ela ia dizer. Marco agia assim, às vezes, e às vezes dizia coisas que não faziam sentido ou não era adequadas à situação. Às vezes fazia ambas as coisas. Mas não fazia isso sempre; só fazia se algo o estivesse deixando irritado ou perturbado. Fazia isso porque, segundo ele, era deste jeito que as pessoas agiam nos últimos dias.
— Aquele é o Ed. — disse Joanne, apontando para um rapaz que ia andando na direção dos dois — Ele está me acompanhando, mas ficou para trás quando eu corri pra vir falar contigo.
Mais uns dez ou quinze passos e Ed chegou ao ponto onde eles estavam. Ed achou estranha a forma apática como Marco agiu. Joanne explicou, dizendo que “ele faz isso o tempo todo, só está brincando”. Marco não estava brincando, estava criticando, à sua maneira, a forma como as pessoas andam agindo.
Ah! — exclamou Joanne — eu me lembrei de uma coisa! Marco, um dia desses Ed me perguntou se eu sabia porquê os videogames de realidade virtual e o Dreamulator são tão diferentes apesar de funcionarem quase da mesma forma, mas eu não soube explicar direito. Como você é um expert em tecnologia, eu achei que talvez você pudesse explicar pra ele. Que tal?
— Claro. Por quê não? — disse Marco, e explicou.
***
O erro de Ed havia sido supor que os videogames de realidade virtual, os GameVirtuae, e o Dreamulator funcionavam de forma sequer parecida. Não só a propostas dos dois produtos era diferente, como era impossível fazer uma comparação entre as tecnologias utilizadas por cada um. Além da diferença no design, é claro.
O Dreamulator nada mais é do que um capacete, enquanto os GameVirtuae são computadores gigantescos, nos quais o usuário precisa entrar para utilizá-los. O GameVirtua funciona renderizando um mundo virtual com história e personagens fictícios e exibe as informações audiovisuais através de monitor e caixas de som ao invés de inseri-las na mente do usuário. As intervenções do meio externo – o mundo real – são bloqueadas pela cabine do aparelho, dentro da qual o jogador deve ficar.
Quando se está em um GameVirtua, é impossível acreditar que se está no mundo real, ainda que por um único segundo. A imagem por ele renderizada é de fato hiper-realista, no entanto é fácil distingui-la da realidade. Além disso, vários tipos de informações estarão sempre visíveis; um medidor de vitalidade do jogador, um indicador de vidas restantes, indicador de munição, entre outros, estarão na “tela” não importa para onde o jogador olhe. E, por fim, o jogador possui apenas a visão e a audição, dos cinco sentidos.
Tudo isso se deve a leis que foram criadas graças aos próprios criadores do sistema, que afirmam que, sem elas, o GameVirtua poderia oferecer riscos ao usuário. Dentre essas leis, a mais importante é uma que estipula que todo aparelho deve pausar automaticamente por trinta minutos a cada três horas de jogo e, caso o jogador permaneça com o sistema ligado por mais de 10 horas, o sistema deverá se desativar por um tempo mínimo de 15 horas; estas configurações devem ser impossíveis de se alterar. A importância desta lei que define as limitações de tempo de uso do GameVirtua é tamanha que a multa por infringi-la pode levar a empresa à falência.
— Você está entendendo tudo? — perguntou Marco, e Ed confirmou. Agora os três se encontram em uma praça no meio da cidade, sentados em um banco. Aquele, sim, era o lugar favorito de Marco.
Já fazia tempo que aquela praça estava sempre vazia. Isto é, em se tratando de seres humanos, pois aquele lugar era sempre cheio de vida. Além das árvores, haviam muitos pássaros e gatos e muitos insetos. Marco gostava de tudo naquele lugar; até dos insetos.
— E o Dreamulator? Você ainda não falou muito sobre ele. — Disse Ed, que estava impressionado com quanto conhecimento Marco tinha sobre o assunto. Cara! Ele sabe até sobre as leis envolvidas!
— Eu já estava chegando lá… — disse Marco, e continuou.
A simplicidade do Dreamulator é surpreendente.
Em resumo, o aparelho funciona da seguinte forma:
Reduz a habilidade do cérebro de captar conscientemente as informações sobre o mundo à sua volta, e substitui o “vazio” criado pelo processo por informações que o aparelho retira do subconsciente do usuário. Como disse um de seus criadores em um discurso, para que todos entendessem: “O Dreamulator esvazia o consciente e enche de volta com o subconsciente”. O aparelho também insere informações agradáveis na mente do usuário através dos chamados estímulos subliminares; isto evita que o usuário tenha uma experiência desagradável, como um tipo de pesadelo.
Segundo os criadores do Dreamulator, este processo é idêntico àquele pelo qual os sonhos são produzidos, fazendo com que o aparelho seja muito seguro, não oferecendo nenhum dos riscos oferecidos pelo GameVirtua. No entanto, por ser fácil confundir uma simulação do Dreamulator com a realidade, existem restrições para seu uso assim como para o GameV. Cada simulação do Dreamulator é limitada a 5 horas, com uma pausa mínima de 2 horas entre uma e outra. Apesar de ser menos perigoso e possuir uma limitação de tempo menos rígida que o GameV, o aparelho mostra em cada simulação um aviso recomendando ao usuário que o utilize apenas uma vez ao dia.
Atualmente, duas empresas fabricam Dreamulators, e pode ser que no futuro apenas uma empresa o faça, pois há uma briga pela patente do produto. Em uma explicação simplificada da situação, chamaremos as empresas de Empresa A e Empresa B.
O aparelho da Empresa A foi lançado duas semanas antes do aparelho da Empresa B. Os primeiros aparelhos tinham alguns defeitos, e vez ou outra geravam simulações desagradáveis. A Empresa A corrigiu a maioria das falhas ainda antes do lançamento do produto da Empresa B, no entanto o produto desta fez muito mais sucesso, tanto por já ter sido lançado sem falhas como por ser mais bonito.
Em pouco tempo a Empresa A abriu um processo contra a Empresa B, afirmando que esta empresa teria roubado sua tecnologia. A Empresa B alegou que estava trabalhando no projeto há muito mais tempo que a Empresa A e que, de alguma forma, informações sobre o projeto vazaram e a Empresa A as utilizou, colocando um produto incompleto no mercado. Nenhuma das duas empresas conseguiu apresentar evidências convincentes o suficiente para provar o que diziam, e a disputa pelos direitos do produto dura até hoje.
***
— Nossa! — disse Ed — Como o tempo voou! Gente, eu preciso ir embora agora, e deixar vocês dois sozinhos, espero que não se importem.
— De forma alguma — respondeu Marco.
— A Joanne tinha razão, você é um cara incrível.
Marco agradeceu gentilmente, Ed se despediu outra vez e foi embora.
— É… agora somos só nós dois — disse Joanne
— Só nós dois… Sorte a minha eu ainda ter você. Todos os meus amigos parecem ter se isolado do resto do mundo depois da assim chamada Singularidade.
Marco olhou para a praça ausente de vida humana, sob a fraca luz do Sol poente. Era estranho não ver nenhum carro passando… voando por ali. Nenhuma criança passeando com seu cão robô, nenhum homem solitário com sua namorada artificial, na ilusão de que ninguém notaria seus movimentos mecânicos… De repente o mundo se transformou naquilo que era há pouco chamado de ficção científica, e ninguém ligava pra isso; ninguém ligava para coisa alguma. Porque é que só ele parecia se sentir incomodado com isso?
Depois de um momento de silêncio, em que Marco ficou pensando, de repente ele se deu conta de algo que não havia notado antes.
— Espere um pouco… — disse ele, virando-se para Joanne, que estava sentada ao seu lado, contemplando o pôr do Sol. Era impressionante como os prédios se abriam deixando uma visão livre do horizonte, daquela praça. — Você disse mesmo para o seu amigo que eu era um cara incrível?
Joanne virou-se para Marco, pareceu estar surpresa com a pergunta. Dois segundos depois ela respondeu:
— Você é incrível!
— Mesmo?
— Você é muito incrível. É o cara mais incrível que eu conheço!
Sem saber o que dizer, Marco preferiu agir. Ele não tinha certeza se seria apropriado fazer o que faria.
Abraçou Joanne, deu-lhe um beijo no rosto e continuou a abraçando. Não era apropriado, pensou, e provavelmente tinha razão, aquilo devia ser muito estúpido, isso sim.
Joanne detestava quando Marco fazia esse tipo de coisa, assim de repente, meio sem motivo. Ela realmente detestava quando ele fazia isso. Porque é que, às vezes, ele tinha que ser tão esquisito? Desta vez, no entanto, ela não ofereceu nenhum tipo de resistência.
Não era exatamente apropriado. Ela o abraçou de volta.
Ela estava feliz, naquele momento.
—
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–Comentários do Autor–
Segunda parte. Agradeço à Yasmin pelos comentários positivos sem os quais eu não me atreveria publicar isto aqui.
P.S.: Sim, o conto terá uma parte para cada mês (exceto pela primeira, que foi de dois meses). Dá pra imaginar o quanto será comprido.
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