— Vingança! — gritou o homem — Eu preciso de vingança!
— Acalma-te, meu jovem — disse o velho vendedor, com tamanha suavidade na voz que chegara a irritar o homem. O velho deu uma pausa, como que esperando que o homem se acalmasse, antes de dizer:
— Diz-me, que vieste fazer neste fim de mundo?
“Este fim de mundo” era um lugar quase totalmente deserto, quilômetros de nada além de mato, e uma ou outra árvore aqui e ali. O único sinal de vida humana era a pequena casinha de madeira onde vivia o vendedor idoso e de voz suave, muito suave; Insuportavelmente suave. Era difícil de acreditar que o vendedor conseguia viver ali; que conseguisse vender qualquer coisa. Atrás da casinha de madeira, uma árvore que o velho cultivava. Não era dos frutos daquela árvore que o vendedor se alimentava. Não, não dos frutos
daquela árvore. Do que ele se alimentava, então? Não importava.
— Um homem... um homem que se fazia meu amigo. Ele arruinou toda a minha vida. Ah! Isso não é algo que você precisa saber. O que importa é que eu quero arruinar a vida dele, e já sei bem como; ouvi dizer que você tem um... uma fruta amaldiçoada, ou qualquer coisa do tipo.
— Ah, sim, é claro! O Fruto de Miguelina! Eis uma história da qual jamais me cansarei. — e o velho começou a contar a história.
Miguelina foi uma mulher que viveu séculos atrás. Pouco se sabe sobre sua real história. De acordo com a lenda, no entanto, Miguelina cultivava plantas de espécies hoje desconhecidas. Ninguém jamais haveria se importado com as plantas criadas pela mulher até o momento em que ela teria criado uma árvore incrivelmente feia e retorcida que, ao mesmo tempo, gerava um fruto de beleza inigualável. Em forma e tamanho, o fruto parecia uma maçã, porém sua cor era um azul intenso, e seu brilho era diferente de tudo que qualquer um tenha visto.
Três eventos ocorreram quase imediatamente. Todos passaram, por uma razão jamais esclarecida, a acreditar que aquela árvore carregava uma maldição; a Igreja acusou a mulher de bruxaria; Miguelina simplesmente desapareceu, sem deixar nenhum rastro, ficando para trás apenas a árvore da qual ninguém ousara se aproximar.
— Não vim aqui ouvir aqui ouvir histórias! — exclamou o homem — apenas me dê a droga do fruto! Pago o que você quiser.
O vendedor disse ao homem que não deveria ser impaciente e lhe pediu que apenas escutasse. O homem não deveria ter ido atrás do fruto sem saber nada sobre ele.
-
Semanas após o desaparecimento da “bruxa” Miguelina, a árvore supostamente teria ficado ausente de frutos e as histórias sobre a maldição teriam começado a sumir. Quando todos pararam de falar sobre a árvore, Miguelina apareceu novamente. Foi encontrada morta, ao lado da árvore, com uma adaga cravada no coração, e lá mesmo teria sido enterrada. Dez anos depois, um novo fruto teria surgido na árvore, ainda mais azul e ainda mais brilhante. Segundo a lenda, a árvore gera apenas um fruto a cada dez anos. Quem o come, é claro, passa a carregar a maldição.
-
— O Fruto! Entregue-o já!
— Aqui está — o vendedor mostrou o fruto. “O quê!? Quando foi que ele pegou isso? De onde ele o tirou?”, o homem se perguntou; o velho parecia ter simplesmente o feito surgir como em um truque de mágica.
— Porém irei entregá-lo apenas quanto tiveres escutado tudo que vou dizer.
— O quê?
Ainda tem mais!? — disse, deu um suspiro, e concluiu — tudo bem, eu vou ouvir... — “eu não tenho outra escolha, mesmo”, pensou — mas antes, responda-me uma pergunta... Aquela árvore que eu vi atrás do seu barraco, é o que estou pensando?
O velho confirmou com a cabeça.
Aquela árvore. A Árvore de Miguelina. O vendedor não era apenas uma pessoa que possuía um dos frutos da árvore, como haviam dito ao homem. Aquele velho era, de fato, o dono da própria árvore!
-
— Sei de coisas sobre o Fruto que homem nenhum sabe — disse o velho, a voz mais suave do que nunca. Como aquilo era possível? O homem se perguntou. — Por exemplo, sei que o Fruto leva exatamente 150 dias para apodrecer completamente. Levando em conta a data em que o colhi, faltam quatro meses para que isto aconteça, então cuides para que o homem de quem queres se vingar coma-o neste prazo.
— Se era só isso, nem precisava avisar. Pretendo fazer o desgraçado comê-lo tão cedo quanto for possível. Agora me dê o Fruto.
O velho entregou o Fruto, mas avisou que ainda faltava dizer algumas coisas importantes, mas se o homem quisesse ir, estaria livre para fazê-lo. O homem disse que queria ouvir, mas não entendeu por que o fez.
— Deves tomar cuidado. Jamais aceites qualquer benefício oferecido a ti pelo homem que carrega a maldição. A maldição dará ao homem toda a riqueza que ele sempre sonhou ter, à medida que vai-lhe tirando todas as coisas que realmente lhe eram importantes. Talvez não pareça para que vê, mas o sofrimento pelo qual o homem passará é de fato inimaginável. Ele desejará morrer todos os dias durante os 6 anos que dura a maldição, que lhe parecerão eternos. A própria maldição o impedirá de cometer suicídio durante este tempo, afinal o sofrimento deve ser completo — o velho deu um sorriso que congelou os ossos do homem, talvez o que o vendedor dizia parecesse bobagem, mas naquele momento o homem estava realmente aterrorizado — Passados os seis anos, a maldição finalmente o matará. A morte é um verdadeiro alívio para quem carrega a maldição.
O velho deu uma pausa, deixou seu sorriso macabro morrer em seu rosto, e disse:
— Afasta-te das riquezas adquiridas pelo amaldiçoado, entendes? É muito importante que o faça, ou a maldição levar-te-á com ele.
— Entendo. Posso ir agora? — disse o homem. O velho vendedor falava devagar, era surpresa que ainda não estivesse anoitecendo.
— Podes ir quando quiseres, mas acho que devo dizer... — o homem não deu sinal de que iria embora, então o velho continuou — Se o Fruto apodrecer sem que o comam, tanto quem o possui como quem o entregou ao novo dono morrem imediatamente. Neste caso, estas pessoas somos eu e você. Deves pensar bem antes de desistires de fazer com que o comam.
— Isso é tudo?
— É tudo.
— Ótimo — disse o homem, e começou a ir embora, mas parou de repente, se virou e disse:
— Espere, e o pagamento? Quanto eu te devo pelo Fruto?
— Teu pagamento é levá-lo contigo e me livrares da morte.
O homem ficou confuso por uns segundos, e depois respondeu:
— Entendo...
Foi embora.
***
Quatro meses se passaram até que alguém aparecesse para ver o vendedor. Era o mesmo homem de antes. Ele exibiu o Fruto, e disse:
— Me desculpe, não pude fazer com que o comessem.
— Não te preocupes — disse o vendedor — eu esperava por isso. És um bom rapaz.
— Não. Eu não pretendo explicar mas... pode parecer absurdo o que vou dizer, eu desisti de fazer o homem comer o Fruto por egoísmo.
— Não importa o motivo. Se deixaste de fazer mal a alguém, então fizeste uma coisa boa. Tens um bom coração.
— Mas agora eu e você morreremos.
— Não importa... já vivi o bastante.
— Eu só vim perguntar quanto tempo falta para que...
isto esteja totalmente podre.
— Pelos meus cálculos... menos de 12 horas.
— Então, se ninguém comê-lo, nós dois morremos em menos de 12 horas. — o vendedor disse que sim, mas não havia sido uma pergunta.
— Se é este o caso, então só me resta uma coisa a fazer... — disse, e foi embora.
Enquanto comia O Fruto.
—
-Palavras-
Pessoalmente, eu acho esse conto um tanto... bobo. Sério.
Quando eu o escrevi, eu gostei bastante, tanto que seu título acabou por se tornar o título deste blog, quando eu o criei. Mas eu tinha 16 anos quando o conto foi escrito e hoje eu tenho, como qualquer um que tenha lido o "Sobre o Blog" deve saber, 19. Três anos é muito tempo.