31 de maio de 2011

Dois Mil e Treze – Parte I

(Atualizado em 24 de Agosto de 2012.)

DE JANEIRO DE 2013.

O ano começou. 2013, o ano que prometia ser o mais fascinante das vidas de todos que nasceram há pelo menos uma década e meia – pois qualquer um que tivesse nascido a menos tempo do que isso nem sequer saberia dizer o significado da palavra “fascinante”.

Marco, de 20 anos, é a única pessoa nascida há mais de uma década e meia que jamais se fascinaria com o que estava por vir, que era o sonho de quase todas as pessoas do mundo. Ou, ao menos, foi isso o que ele achou…

FEVEREIRO.

…Mas ninguém se fascinou com coisa alguma.

E por essa Marco não esperava. Dezembro de 2012 havia sido um mês que entraria para a história, pois foi o mês em que ocorrera a Singularidade Tecnológica, um evento no qual a tecnologia do mundo passara por uma evolução gigantesca em um curtíssimo espaço de tempo. O evento durou apenas um mês.

Há menos de um ano atrás, se alguém se arriscasse a dizer que a Singularidade pudesse ocorrer em 2012, seria chamado de louco. O cientista que fizesse a suposição de que a tecnologia poderia evoluir tanto em um mês, então, seria zombado por toda a comunidade científica do mundo, perdendo toda sua credibilidade. E no entanto, foi o que aconteceu.

Entre coisas como um tradutor instantâneo que lhe permite entender qualquer coisa dita por qualquer pessoa do mundo, um celular que lhe permite ligar para qualquer pessoa apenas pensando em seu nome e um minúsculo cartão de memória capaz de armazenar sozinho toda informação da internet, surgiu também uma máquina tão incrível que já havia vendido 1 bilhão de cópias em uma semana após o seu lançamento, e hoje já é duas vezes mais presente na casa das pessoas do que foram os computadores pessoais em seu auge.

Esta máquina trata-se de um dentre muitos tipos de simuladores de realidade virtual que surgiram no mercado. Ela constrói um mundo inteiro com base na atividade cerebral de seu usuário; este mundo é o mais agradável o possível para quem usa o aparelho. Segundo seus criadores, o mundo simulado pela máquina não é criado pela mesma, mas trata-se do mesmo mundo no qual o usuário vive seus sonhos. O nome da máquina é Dreamulator, e é possivelmente cem vezes mais popular do que os videogames de realidade virtual, conhecidos como GameVirtua.

Janeiro foi um mês agitado. Este mês, fevereiro, vem sendo um mês mais tranquilo. E é neste mês que Marco começa a perceber que as pessoas não estão realmente tão excitadas com toda essa tecnologia hiper avançada quanto era de se esperar. De fato, por mais que todo mundo tenha uma enorme quantidade destes novos aparelhos em casa, ninguém dá a mínima para nenhuma dessas coisas. As pessoas se importam muito menos com a nova tecnologia do que se importavam com a antiga.

Marco tinha impressão de que ninguém mais se dava conta disso.

Clique aqui para ler a parte II.

-Comentários do Autor-
Esta é a primeira parte do meu novo conto Dois Mil e Treze, um conto de ficção científica sobre os acontecimentos posteriores à Singularidade, que viera a ocorrer anos, até mesmo décadas, antes do que se esperava. Paralelamente à descrição de aparelhos fictícios e de tecnologia hiper avançada, a história conta um pouco sobre a vida de três personagens, um dos quais, como você pode notar, é Marco, um jovem que se sente bastante desconfortável com a indiferença das pessoas em relação às novas tecnologias.

O conto ainda não foi concluído, na verdade eu pretendo "alcançar" o conto até onde foi escrito e então postá-lo aqui à medida em que for escrevendo. Este conto certamente será bem mais longo que o "A Cidade" – talvez tenha até o triplo do tamanho –, e pode demorar bastante para ser concluído.

26 de maio de 2011

#microcontos

Recentemente eu entrei no Twitter. Há já muito tempo eu não escrevia nanocontos, mas o limite de 140 caracteres do serviço em questão me motivou a escrever lá alguns nanocontos (bem, lá eu uso o termo sinônimo "microconto", por causa da hashtag). Para falar a verdade, desde que entrei no Twitter - a menos de um mês - eu escrevi pelo menos 15 nanocontos, dobrando a quantidade que eu havia escrito até hoje (e olha que o meu primeiro foi escrito quando eu tinha 16 anos). Resumindo, o inesperado aconteceu, e o Twitter me foi de grande utilidade.
Enfim, sem mais enrolação, posto aqui alguns destes nanocontos:


Teve o cérebro transplantado em corpo de mulher. Continuou sem entendê-las.
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"Oh, Sara", no meio da transa, confundiu a esposa com a irmã gêmea.
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"Adeus, mundo cruel", dizia o blilhete preso à máquina do tempo.
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E pegou a última batata do pacote. De biscoitos.
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P.S.: Sim, eu sei que o segundo é meio escroto.

14 de maio de 2011

Fruto Maldito

— Vingança! — gritou o homem — Eu preciso de vingança!

— Acalma-te, meu jovem — disse o velho vendedor, com tamanha suavidade na voz que chegara a irritar o homem. O velho deu uma pausa, como que esperando que o homem se acalmasse, antes de dizer:

— Diz-me, que vieste fazer neste fim de mundo?

“Este fim de mundo” era um lugar quase totalmente deserto, quilômetros de nada além de mato, e uma ou outra árvore aqui e ali. O único sinal de vida humana era a pequena casinha de madeira onde vivia o vendedor idoso e de voz suave, muito suave; Insuportavelmente suave. Era difícil de acreditar que o vendedor conseguia viver ali; que conseguisse vender qualquer coisa. Atrás da casinha de madeira, uma árvore que o velho cultivava. Não era dos frutos daquela árvore que o vendedor se alimentava. Não, não dos frutos daquela árvore. Do que ele se alimentava, então? Não importava.

— Um homem... um homem que se fazia meu amigo. Ele arruinou toda a minha vida. Ah! Isso não é algo que você precisa saber. O que importa é que eu quero arruinar a vida dele, e já sei bem como; ouvi dizer que você tem um... uma fruta amaldiçoada, ou qualquer coisa do tipo.

— Ah, sim, é claro! O Fruto de Miguelina! Eis uma história da qual jamais me cansarei. — e o velho começou a contar a história.

Miguelina foi uma mulher que viveu séculos atrás. Pouco se sabe sobre sua real história. De acordo com a lenda, no entanto, Miguelina cultivava plantas de espécies hoje desconhecidas. Ninguém jamais haveria se importado com as plantas criadas pela mulher até o momento em que ela teria criado uma árvore incrivelmente feia e retorcida que, ao mesmo tempo, gerava um fruto de beleza inigualável. Em forma e tamanho, o fruto parecia uma maçã, porém sua cor era um azul intenso, e seu brilho era diferente de tudo que qualquer um tenha visto.

Três eventos ocorreram quase imediatamente. Todos passaram, por uma razão jamais esclarecida, a acreditar que aquela árvore carregava uma maldição; a Igreja acusou a mulher de bruxaria; Miguelina simplesmente desapareceu, sem deixar nenhum rastro, ficando para trás apenas a árvore da qual ninguém ousara se aproximar.

— Não vim aqui ouvir aqui ouvir histórias! — exclamou o homem — apenas me dê a droga do fruto! Pago o que você quiser.
O vendedor disse ao homem que não deveria ser impaciente e lhe pediu que apenas escutasse. O homem não deveria ter ido atrás do fruto sem saber nada sobre ele.

-
Semanas após o desaparecimento da “bruxa” Miguelina, a árvore supostamente teria ficado ausente de frutos e as histórias sobre a maldição teriam começado a sumir. Quando todos pararam de falar sobre a árvore, Miguelina apareceu novamente. Foi encontrada morta, ao lado da árvore, com uma adaga cravada no coração, e lá mesmo teria sido enterrada. Dez anos depois, um novo fruto teria surgido na árvore, ainda mais azul e ainda mais brilhante. Segundo a lenda, a árvore gera apenas um fruto a cada dez anos. Quem o come, é claro, passa a carregar a maldição.

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— O Fruto! Entregue-o já!

— Aqui está — o vendedor mostrou o fruto. “O quê!? Quando foi que ele pegou isso? De onde ele o tirou?”, o homem se perguntou; o velho parecia ter simplesmente o feito surgir como em um truque de mágica.

— Porém irei entregá-lo apenas quanto tiveres escutado tudo que vou dizer.

— O quê? Ainda tem mais!? — disse, deu um suspiro, e concluiu — tudo bem, eu vou ouvir... — “eu não tenho outra escolha, mesmo”, pensou — mas antes, responda-me uma pergunta... Aquela árvore que eu vi atrás do seu barraco, é o que estou pensando?

O velho confirmou com a cabeça.

Aquela árvore. A Árvore de Miguelina. O vendedor não era apenas uma pessoa que possuía um dos frutos da árvore, como haviam dito ao homem. Aquele velho era, de fato, o dono da própria árvore!

-

— Sei de coisas sobre o Fruto que homem nenhum sabe — disse o velho, a voz mais suave do que nunca. Como aquilo era possível? O homem se perguntou. — Por exemplo, sei que o Fruto leva exatamente 150 dias para apodrecer completamente. Levando em conta a data em que o colhi, faltam quatro meses para que isto aconteça, então cuides para que o homem de quem queres se vingar coma-o neste prazo.

— Se era só isso, nem precisava avisar. Pretendo fazer o desgraçado comê-lo tão cedo quanto for possível. Agora me dê o Fruto.

O velho entregou o Fruto, mas avisou que ainda faltava dizer algumas coisas importantes, mas se o homem quisesse ir, estaria livre para fazê-lo. O homem disse que queria ouvir, mas não entendeu por que o fez.

— Deves tomar cuidado. Jamais aceites qualquer benefício oferecido a ti pelo homem que carrega a maldição. A maldição dará ao homem toda a riqueza que ele sempre sonhou ter, à medida que vai-lhe tirando todas as coisas que realmente lhe eram importantes. Talvez não pareça para que vê, mas o sofrimento pelo qual o homem passará é de fato inimaginável. Ele desejará morrer todos os dias durante os 6 anos que dura a maldição, que lhe parecerão eternos. A própria maldição o impedirá de cometer suicídio durante este tempo, afinal o sofrimento deve ser completo — o velho deu um sorriso que congelou os ossos do homem, talvez o que o vendedor dizia parecesse bobagem, mas naquele momento o homem estava realmente aterrorizado — Passados os seis anos, a maldição finalmente o matará. A morte é um verdadeiro alívio para quem carrega a maldição.

O velho deu uma pausa, deixou seu sorriso macabro morrer em seu rosto, e disse:

— Afasta-te das riquezas adquiridas pelo amaldiçoado, entendes? É muito importante que o faça, ou a maldição levar-te-á com ele.

— Entendo. Posso ir agora? — disse o homem. O velho vendedor falava devagar, era surpresa que ainda não estivesse anoitecendo.

— Podes ir quando quiseres, mas acho que devo dizer... — o homem não deu sinal de que iria embora, então o velho continuou — Se o Fruto apodrecer sem que o comam, tanto quem o possui como quem o entregou ao novo dono morrem imediatamente. Neste caso, estas pessoas somos eu e você. Deves pensar bem antes de desistires de fazer com que o comam.

— Isso é tudo?
— É tudo.

— Ótimo — disse o homem, e começou a ir embora, mas parou de repente, se virou e disse:

— Espere, e o pagamento? Quanto eu te devo pelo Fruto?

— Teu pagamento é levá-lo contigo e me livrares da morte.

O homem ficou confuso por uns segundos, e depois respondeu:

— Entendo...

Foi embora.


***

Quatro meses se passaram até que alguém aparecesse para ver o vendedor. Era o mesmo homem de antes. Ele exibiu o Fruto, e disse:

— Me desculpe, não pude fazer com que o comessem.

— Não te preocupes — disse o vendedor — eu esperava por isso. És um bom rapaz.

— Não. Eu não pretendo explicar mas... pode parecer absurdo o que vou dizer, eu desisti de fazer o homem comer o Fruto por egoísmo.

— Não importa o motivo. Se deixaste de fazer mal a alguém, então fizeste uma coisa boa. Tens um bom coração.
— Mas agora eu e você morreremos.

— Não importa... já vivi o bastante.

— Eu só vim perguntar quanto tempo falta para que... isto esteja totalmente podre.
— Pelos meus cálculos... menos de 12 horas.

— Então, se ninguém comê-lo, nós dois morremos em menos de 12 horas. — o vendedor disse que sim, mas não havia sido uma pergunta.

— Se é este o caso, então só me resta uma coisa a fazer... — disse, e foi embora.


Enquanto comia O Fruto.



-Palavras-

Pessoalmente, eu acho esse conto um tanto... bobo. Sério.

Quando eu o escrevi, eu gostei bastante, tanto que seu título acabou por se tornar o título deste blog, quando eu o criei. Mas eu tinha 16 anos quando o conto foi escrito e hoje eu tenho, como qualquer um que tenha lido o "Sobre o Blog" deve saber, 19. Três anos é muito tempo.