29 de junho de 2011

#microcontos III


No chão, onde todos viam seu dente, ele via seu ego.
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Toda sua vida estava na foto que agora ela queimava.
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Escreveu o pedaço que faltava. Jogou todo o resto fora.
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Foi a melhor, a menor história que ouviu.
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(Esse último reflete bem a minha realidade, heh.)

23 de junho de 2011

Casca de Gás em Pó

Algum cheiro azul
E casca de gás em pó
Um som de bom sabor
E casca de gás em pó

Queria poder morrer
Sem sequer viver
Queria saber andar
Sem ter que levantar

Sombra de corpo etéreo
Luz de matéria escura
E casca de gás em pó

Gigante homem invisível
Uma sonolência acordada
E casca de gás em pó

-Comentários do Autor-
Eu queria escrever algo que não fizesse sentido algum (embora, talvez, algum verso isolado possa fazer algum sentido). Costumava fazer isso antigamente, porque assim eu conseguia organizar os pensamentos e me inspirar o bastante para escrever um bom texto (que faça sentido). Normalmente eu guardo este tipo de texto em um lugar onde ninguém além de mim o lerá, e eventualmente acabo por jogá-los fora. Mas eu achei este simplesmente incrível.

(Eu sei, eu sei. Talvez eu deva consultar um psiquiatra)

22 de junho de 2011

Dois Mil e Treze – Parte III

(Atualizado em 24 de Agosto de 2012.)


ABRIL.

Surgiu um novo modelo de namorada artificial que, segundo as propagandas, agiriam exatamente como uma mulher de verdade. Também surgiram cães robôs capazes de fazer tudo o que faz um cão de verdade… Tudo. Surgiram carros voadores que prometiam voar mais alto, mais rápido e por mais tempo. E até a internet ficou dez vezes mais veloz. E, o mais importante de tudo, o Dreamulator agora é exclusivo da Empresa B; apenas porque a Empresa A foi à falência. Marco achou que isto era esperado, se levarmos em conta que o produto da Empresa B foi lançado com algumas vantagens significativas em relação ao da concorrência.

Marco nunca usou aparelhos como os GameVirtuae ou os Dreamulators – na verdade, ele evitava o máximo que era possível as novas tecnologias –, ele tinha um certo receio de que se houvesse alguma falha no sistema, ainda que fosse pouco provável, que poderia deixá-lo estado vegetativo. Apesar de ter um ou dois aparelhos de tecnologia hiper avançada em casa, Marco continua levando praticamente a mesma vida que levava antes da Singularidade. Ele gostava daquela vida.

A despeito de não utilizar a maioria das máquinas que surgiram desde dezembro de 2012, Marco costumava acompanhar a sua evolução, especialmente porque ele não via ninguém as usando – só viu Joanne com seu GameV uma vez ou outra. Obter informações sobre elas servia para provar a ele que as pessoas estavam, de fato, as utilizando.

***

Navegando na internet em um dos últimos computadores que ainda se parecia com um aparelho de antes da Singularidade – que era, na verdade, bastante avançado – Marco de repente começou a falar sozinho.

Estava atendendo a uma ligação de Joanne. Seu celular era um aparelho introduzido em seu ouvido, do qual Marco poderia até esquecer que existia, se não o retirasse para dormir. O aparelho em questão atendia a comandos mentais, de forma que um simples pensamento era o suficiente para fazer uma ligação para alguém ou atender a uma ligação. De fato a tecnologia do aparelho é o bastante para que as pessoas possam se comunicar mentalmente – desde que a ligação fosse atendida. No entanto, os desenvolvedores deste dispositivo preferiram fazer com que seus usuários precisassem falar para se comunicar, isto devido ao fato de que o interpretador interno do aparelho poderia transmitir algo em que um usuário teria pensadopor acidente, o que poderia causar sérios problemas.

Joanne ligou porque precisava encontrá-lo na praça.

***

— Então, por que você me chamou aqui? — perguntou Marco.

— Eu só queria te ver. Não é um bom motivo?

— Você não está falando sério — ele disse. Joanne riu.

— Você tem razão. Na verdade eu comprei um novo modelo de GameVirtua, mas não consegui fazê-lo funcionar de forma alguma. Como você sabe tudo sobre tecnologia, eu pensei que poderia me ajudar.

Marco não sabia tudo sobre tecnologia, apenas uma meia dúzia de coisas, que achava que todas as pessoas deveriam saber; mas é claro que a grande maioria das pessoas ignorava a importância deste tipo de conhecimento. A maioria das pessoas sempre ignora a importância de qualquer tipo de conhecimento. Ele disse:

— Por que então não pediu que eu fosse até tua casa?

— Porque eu estou com o Ed, ele vai levar a gente de carro.

— O Ed? E onde ele está?

— Ali, — Joanne apontou um carro, a alguns metros dali — no carro. Está esperando a gente.

Neste mesmo instante Ed buzinou e gritou para que eles entrassem logo no veículo. Era um carro voador. Marco nunca havia andado em um carro voador.

***

— Prontinho! — disse, Marco, ao terminar a instalação do aparelho — Tudo está funcionando perfeitamente.

— Você é mesmo um gênio, Marco! — exclamou Joanne — Eu fiquei horas lendo a droga do manual e nem assim consegui fazer esta coisa funcionar. Você instalou tudo em cinco minutinhos, sem dar uma só olhada no manual!

Marco agradeceu, mas não gostou do exagero de Joanne. Um gênio, até parece.

Ed, que ficou ali só observando enquanto Marco instalava o aparelho sem falar uma única palavra, disse:

— Muito impressionante! Você mesmo não havia dito que nunca usou um desses? E, mesmo assim, não teve nenhuma dificuldade.

— Não é muito difícil. Na verdade, é quase a mesma coisa que ligar um velho PC. Estou surpreso que até agora não tenham feito que esses aparelhos funcionassem ao apertar de um único botão. Devem fabricar assim para obrigar algumas pessoas a contratarem técnicos, é claro.

Sem dar a mínima atenção ao que Marco estava falando, Joanne disse:

— Eu queria muito começar a jogar agora. Mas vocês dois estão aqui, e este aparelho é individual. — Joanne fez uma expressão pensativa no rosto — Porque será que não fabricam pra mais de uma pessoa? Será que todos são tão solitários assim? — e, deixando estes pensamentos de lado, mudou de assunto: — Vocês estão com fome? Eu vou pedir alguns hambúrgueres.

— Você sabe que eu sou vegetariano, né? — disseram Marco e Ed, em uníssono; entreolharam-se e começaram a gargalhar.

***

Três semanas se passaram desde aquele dia na casa de Joanne, e o mês de abril estava chegando a um fim.

Três semanas não costumavam parecer muito tempo, mas este era o tempo que Marco havia ficado sem ver Joanne; sem ver qualquer outra pessoa – e a solidão tinha sobre ele este efeito de fazer o tempo passar devagar. Ele pensou que talvez devesse ligar para Joanne mas, ao invés disso, sentou-se diante do computador e começou a ler sobre hiper tecnologia na internet.

Marco leu sobre a colonização de Marte que começou no meio do mês, com cientistas; e agora pessoas comuns estavam começando a ir para o planeta. Leu sobre teletransportadores, corpos artificiais, sobre uma nova forma de gerar energia chamada microfissão e sobre viagens no tempo, entre outras coisas que estavam previstas para o próximo mês.

Aos poucos, a ciência vai destruindo a ficção científica.

Clique aqui para ler a parte IV.


-Comentários do Autor-
Aí está a terceira parte. Essa parte já estava escrita, mas eu demorei para postar porque eu estive escrevendo a quarta parte bem devagar. Mas agora eu peguei um ritmo melhor.

Mais ou menos off-topic: Se você não sabia disso até agora: comprovadamente viagens no tempo para o futuro são, de fato, possíveis. O único problema é o que os meios para tal são impraticáveis com a tecnologia que temos hoje.

Se eu acredito que no futuro poderemos viajar no tempo? Para o futuro, provavelmente sim. Para o passado, provavelmente não (ou seja, se você viajar para o futuro, não terá volta).

17 de junho de 2011

Por uma Vida Melhor

Eu devia ter falado sobre isto aqui há mais tempo. Agora o assunto já está velho e já não sei mais se vale a pena falar sobre. Lembra do livro "Por uma Vida Melhor"? Aquele, aprovado pelo MEC (Ministério da Educação), que andam dizendo por aí que está "ensinando a falar errado". O trecho que andou causando a polêmica é o seguinte:
"Os livro ilustrado mais interessante estão emprestado'. Você pode estar se perguntando: ‘Mas eu posso falar ‘os livro?’.’ Claro que pode. Mas fique atento porque, dependendo da situação, você corre o risco de ser vítima de preconceito linguístico."
E muita gente reclamou que ensinar isso é errado, porque é preciso saber falar o certo e blábláblá. Eu devo dizer aqui que os autores do livro estão com toda razão. O problema é que o trecho em questão sempre foi passado fora de contexto, dando uma certa impressão de que o livro está mesmo "ensinando a falar errado". Mas confira o trecho a seguir:
"A norma culta existe tanto na linguagem escrita como na linguagem oral, ou seja, quando escrevemos um bilhete a um amigo, podemos ser informais, porém, quando escrevemos um requerimento, por exemplo, devemos ser formais, utilizando a norma culta. Algo semelhante ocorre quando falamos: conversar com uma autoridade exige uma fala formal, enquanto é natural conversarmos com as pessoas de nossa família de maneira espontânea, informal."
Eu sempre defendi a ideia de que as pessoas têm (ou deveriam ter) o direito de falar a própria da forma como preferirem – desde que saibam quando é necessário usar a norma culta –, como fica claro na minha primeira postagem lá no GrammExp. E é exatamente isso que os autores do livro disseram, como se pode notar ao ler o trecho acima. O livro ensina, sim, a norma culta, mas deixa bem claro que, em situações informais, podemos falar da forma que quisermos. O livro ensinou o que é liberdade linguística. E, na minha opinião, essa foi a melhor coisa já ensinada em livro didático.

6 de junho de 2011

#microcontos II


Ao morrer, frustrou-se por ter se frustrado com tudo em vida.
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Havia vida após a morte. "Bem que eu mereci", pensou.
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"Não fale sozinho", disse. "É, vão achar que está louco", respondeu.
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Comprou um cão-robô. Seu melhor amigo o robô.
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P.S.: Sim, eu sei que o trocadilho do último é escroto.

3 de junho de 2011

Dois Mil e Treze – Parte II

(Atualizado em 24 de Agosto de 2012.)

Clique aqui para ler a parte I.

MARÇO.

Marco saiu de casa para passear. Para pensar um pouco. Ele não conseguia pensar dentro de casa, não era o seu lugar favorito. Andou pelas ruas vazias. As coisas mais parecidas com rostos que ele via eram a parte da frente de alguns carros parados à frente das casas.

Carros voadores.


Ele se perguntou como era possível que carros voadores tenham substituído por completo os carros convencionais em um período tão curto de tempo. Parecia irreal demais para ser verdade – como todo o resto. Era verdade.

Por que aqueles carros estavam parados ali? Porque ninguém os dirigia? Carros voadores… não era isso que todo mundo queria? Como é possível que todos os tenham deixado de lado?

Os carros não eram o que perturbava Marco. Eles não eram a coisa mais incrível que havia sur…

— Ei! Marco! — gritou uma garota, interrompendo seus pensamentos. Ela estava bem longe, e foi correndo em sua direção. Era Joanne, 18 anos, melhor amiga de Marco.

— Ah, oi Joanne, há quanto tempo? — perguntou, apático — Nossa. Como você mudou.

— Não seja bobo… A gente se viu ontem! Porque você sempre faz isso quando a gente se encontra? — ela perguntou

— Isso o quê. — disse Marco. Era uma pergunta sem interrogação.

— Isso aí que você tá fazendo. Agindo como se… Ah! Deixa pra lá.

“Agindo como se não tivesse emoção”, ela ia dizer. Marco agia assim, às vezes, e às vezes dizia coisas que não faziam sentido ou não era adequadas à situação. Às vezes fazia ambas as coisas. Mas não fazia isso sempre; só fazia se algo o estivesse deixando irritado ou perturbado. Fazia isso porque, segundo ele, era deste jeito que as pessoas agiam nos últimos dias.

— Aquele é o Ed. — disse Joanne, apontando para um rapaz que ia andando na direção dos dois — Ele está me acompanhando, mas ficou para trás quando eu corri pra vir falar contigo.

Mais uns dez ou quinze passos e Ed chegou ao ponto onde eles estavam. Ed achou estranha a forma apática como Marco agiu. Joanne explicou, dizendo que “ele faz isso o tempo todo, só está brincando”. Marco não estava brincando, estava criticando, à sua maneira, a forma como as pessoas andam agindo.

Ah! — exclamou Joanne — eu me lembrei de uma coisa! Marco, um dia desses Ed me perguntou se eu sabia porquê os videogames de realidade virtual e o Dreamulator são tão diferentes apesar de funcionarem quase da mesma forma, mas eu não soube explicar direito. Como você é um expert em tecnologia, eu achei que talvez você pudesse explicar pra ele. Que tal?

— Claro. Por quê não? — disse Marco, e explicou.

***

O erro de Ed havia sido supor que os videogames de realidade virtual, os GameVirtuae, e o Dreamulator funcionavam de forma sequer parecida. Não só a propostas dos dois produtos era diferente, como era impossível fazer uma comparação entre as tecnologias utilizadas por cada um. Além da diferença no design, é claro.

O Dreamulator nada mais é do que um capacete, enquanto os GameVirtuae são computadores gigantescos, nos quais o usuário precisa entrar para utilizá-los. O GameVirtua funciona renderizando um mundo virtual com história e personagens fictícios e exibe as informações audiovisuais através de monitor e caixas de som ao invés de inseri-las na mente do usuário. As intervenções do meio externo – o mundo real – são bloqueadas pela cabine do aparelho, dentro da qual o jogador deve ficar.

Quando se está em um GameVirtua, é impossível acreditar que se está no mundo real, ainda que por um único segundo. A imagem por ele renderizada é de fato hiper-realista, no entanto é fácil distingui-la da realidade. Além disso, vários tipos de informações estarão sempre visíveis; um medidor de vitalidade do jogador, um indicador de vidas restantes, indicador de munição, entre outros, estarão na “tela” não importa para onde o jogador olhe. E, por fim, o jogador possui apenas a visão e a audição, dos cinco sentidos.

Tudo isso se deve a leis que foram criadas graças aos próprios criadores do sistema, que afirmam que, sem elas, o GameVirtua poderia oferecer riscos ao usuário. Dentre essas leis, a mais importante é uma que estipula que todo aparelho deve pausar automaticamente por trinta minutos a cada três horas de jogo e, caso o jogador permaneça com o sistema ligado por mais de 10 horas, o sistema deverá se desativar por um tempo mínimo de 15 horas; estas configurações devem ser impossíveis de se alterar. A importância desta lei que define as limitações de tempo de uso do GameVirtua é tamanha que a multa por infringi-la pode levar a empresa à falência.

— Você está entendendo tudo? — perguntou Marco, e Ed confirmou. Agora os três se encontram em uma praça no meio da cidade, sentados em um banco. Aquele, sim, era o lugar favorito de Marco.

Já fazia tempo que aquela praça estava sempre vazia. Isto é, em se tratando de seres humanos, pois aquele lugar era sempre cheio de vida. Além das árvores, haviam muitos pássaros e gatos e muitos insetos. Marco gostava de tudo naquele lugar; até dos insetos.

— E o Dreamulator? Você ainda não falou muito sobre ele. — Disse Ed, que estava impressionado com quanto conhecimento Marco tinha sobre o assunto. Cara! Ele sabe até sobre as leis envolvidas!

— Eu já estava chegando lá… — disse Marco, e continuou.

A simplicidade do Dreamulator é surpreendente.

Em resumo, o aparelho funciona da seguinte forma:

Reduz a habilidade do cérebro de captar conscientemente as informações sobre o mundo à sua volta, e substitui o “vazio” criado pelo processo por informações que o aparelho retira do subconsciente do usuário. Como disse um de seus criadores em um discurso, para que todos entendessem: “O Dreamulator esvazia o consciente e enche de volta com o subconsciente”. O aparelho também insere informações agradáveis na mente do usuário através dos chamados estímulos subliminares; isto evita que o usuário tenha uma experiência desagradável, como um tipo de pesadelo.

Segundo os criadores do Dreamulator, este processo é idêntico àquele pelo qual os sonhos são produzidos, fazendo com que o aparelho seja muito seguro, não oferecendo nenhum dos riscos oferecidos pelo GameVirtua. No entanto, por ser fácil confundir uma simulação do Dreamulator com a realidade, existem restrições para seu uso assim como para o GameV. Cada simulação do Dreamulator é limitada a 5 horas, com uma pausa mínima de 2 horas entre uma e outra. Apesar de ser menos perigoso e possuir uma limitação de tempo menos rígida que o GameV, o aparelho mostra em cada simulação um aviso recomendando ao usuário que o utilize apenas uma vez ao dia.

Atualmente, duas empresas fabricam Dreamulators, e pode ser que no futuro apenas uma empresa o faça, pois há uma briga pela patente do produto. Em uma explicação simplificada da situação, chamaremos as empresas de Empresa A e Empresa B.

O aparelho da Empresa A foi lançado duas semanas antes do aparelho da Empresa B. Os primeiros aparelhos tinham alguns defeitos, e vez ou outra geravam simulações desagradáveis. A Empresa A corrigiu a maioria das falhas ainda antes do lançamento do produto da Empresa B, no entanto o produto desta fez muito mais sucesso, tanto por já ter sido lançado sem falhas como por ser mais bonito.

Em pouco tempo a Empresa A abriu um processo contra a Empresa B, afirmando que esta empresa teria roubado sua tecnologia. A Empresa B alegou que estava trabalhando no projeto há muito mais tempo que a Empresa A e que, de alguma forma, informações sobre o projeto vazaram e a Empresa A as utilizou, colocando um produto incompleto no mercado. Nenhuma das duas empresas conseguiu apresentar evidências convincentes o suficiente para provar o que diziam, e a disputa pelos direitos do produto dura até hoje.

***

— Nossa! — disse Ed — Como o tempo voou! Gente, eu preciso ir embora agora, e deixar vocês dois sozinhos, espero que não se importem.

— De forma alguma — respondeu Marco.

— A Joanne tinha razão, você é um cara incrível.

Marco agradeceu gentilmente, Ed se despediu outra vez e foi embora.

— É… agora somos só nós dois — disse Joanne

— Só nós dois… Sorte a minha eu ainda ter você. Todos os meus amigos parecem ter se isolado do resto do mundo depois da assim chamada Singularidade.

Marco olhou para a praça ausente de vida humana, sob a fraca luz do Sol poente. Era estranho não ver nenhum carro passando… voando por ali. Nenhuma criança passeando com seu cão robô, nenhum homem solitário com sua namorada artificial, na ilusão de que ninguém notaria seus movimentos mecânicos… De repente o mundo se transformou naquilo que era há pouco chamado de ficção científica, e ninguém ligava pra isso; ninguém ligava para coisa alguma. Porque é que só ele parecia se sentir incomodado com isso?

Depois de um momento de silêncio, em que Marco ficou pensando, de repente ele se deu conta de algo que não havia notado antes.

— Espere um pouco… — disse ele, virando-se para Joanne, que estava sentada ao seu lado, contemplando o pôr do Sol. Era impressionante como os prédios se abriam deixando uma visão livre do horizonte, daquela praça. — Você disse mesmo para o seu amigo que eu era um cara incrível?

Joanne virou-se para Marco, pareceu estar surpresa com a pergunta. Dois segundos depois ela respondeu:

— Você é incrível!

— Mesmo?

— Você é muito incrível. É o cara mais incrível que eu conheço!

Sem saber o que dizer, Marco preferiu agir. Ele não tinha certeza se seria apropriado fazer o que faria.

Abraçou Joanne, deu-lhe um beijo no rosto e continuou a abraçando. Não era apropriado, pensou, e provavelmente tinha razão, aquilo devia ser muito estúpido, isso sim.

Joanne detestava quando Marco fazia esse tipo de coisa, assim de repente, meio sem motivo. Ela realmente detestava quando ele fazia isso. Porque é que, às vezes, ele tinha que ser tão esquisito? Desta vez, no entanto, ela não ofereceu nenhum tipo de resistência.

Não era exatamente apropriado. Ela o abraçou de volta.

Ela estava feliz, naquele momento.

Clique aqui para ler a parte III.

–Comentários do Autor–


Segunda parte. Agradeço à Yasmin pelos comentários positivos sem os quais eu não me atreveria publicar isto aqui.

P.S.: Sim, o conto terá uma parte para cada mês (exceto pela primeira, que foi de dois meses). Dá pra imaginar o quanto será comprido.