5 de novembro de 2011

Três Piscadelas

Ela abriu a porta do quarto, entrou, e se lançou na cama.

Piscou os olhos três vezes. Ela não sabia o que ia acontecer; nunca sabia, e por isso era tão divertido. O teto do quarto ficou verde. Ela abriu um sorriso, depois riu, e depois gargalhou, soluçando enquanto se esforçava para impedir o próprio riso: não queria que sua mãe aparecesse ali pra perguntar do que ela tanto ria, pois acabaria vendo o teto verde. Então a menina se perguntou o que tinha de tão engraçado em um teto verde afinal. Mas isso não importava, só era engraçado.

Ela estava grata pelo fato de só ter descoberto essa habilidade aos doze anos. Ainda era uma criança, mas não era mais ingênua o suficiente para acreditar que todos achariam isso perfeitamente natural; ela sabia que ninguém poderia tomar conhecimento de seus poderes, ou seria vista como uma aberração.

Fechou os olhos por três segundos e, quando abriu, o teto estava normal. De certa forma, isso acontecia com todos, pensou a garotinha. É claro que nem todos tinham habilidades especiais como as dela, mas ela percebia que as pessoas não têm espaço para fazer o que quiserem, sem que tenha alguém para achar isso esquisito ou errado. Isso era uma chatice.

Novamente, ela piscou os olhos três vezes. Ela demorou um pouco para ver, pois estava esperando que seria no teto de novo. Às vezes, ela cometia esse erro de esperar por algo específico, mesmo conhecendo a imprevisibilidade daquilo que fazia. Torneiras. Várias delas, espalhadas pela porta do quarto. No momento em que as viu, quase fechou os olhos de imediato, mas se deteve: as coisas nunca se repetem, e ela não poderia perder aquela oportunidade e, além disso, lembrou-se que sua habilidade jamais afeta o exterior do ambiente onde ela é usada.

O que poderia sair daquelas torneiras? As possibilidades eram literalmente infinitas. Não precisava ser líquido, não precisava ser possível que passasse pelo cano da torneira; podia até mesmo ser perigoso. Sim, por que não? Se ela não sabe, então pode ser qualquer coisa. Não pense que há palitos de dente na caixa só porque é uma caixa de palitos de dente, ela sempre dizia para si. Abriu uma torneira.

Um pó branco começou a sair. Açúcar? Sal? Por ter pensado nessas coisas, teve certeza de que não era nem um nem outro. Fez uma concha com a mão e a colocou debaixo da torneira, enchendo-a com o pó. Lambeu, e não sentiu gosto nenhum; também não tinha cheiro. Coçou a cabeça, um pouco confusa. Derramou o pó no chão e olhou para a porta, a fim de escolher a próxima torneira. Gigante.

A menina estava medindo um palmo de altura, encolhida pelo efeito do misterioso pó; como conseguiria abrir aquela torneira enorme? Poderia apenas fechar os olhos e voltaria ao seu tamanho normal, porém nunca mais veria aquelas torneiras, jamais saberia o que sai de cada uma, e ela não suportaria tamanha curiosidade. Olhou ao redor, em busca de qualquer coisa no quarto que poderia ajudá-la.

Uma das torneiras estava de ponta-cabeça. Estava bem perto do chão, então a garota pensou que talvez pudesse abri-la. Ela empurrou a válvula com as duas mãos, e ela girou. Da boca virada para cima da torneira jorraram milhares de pequenas esferas vermelhas, que pareciam do tamanho de aspirinas para a garota.

As esferas quase a soterraram, mas ela foi escavando ao seu redor até que conseguiu sair. Por sorte, a torneira parou sozinha. Ela ficou parada diante do morro de bolinhas, perguntando-se o que fazer. Faria o óbvio, é claro; pegou uma e engoliu, esperando que fizesse com que ela voltasse ao tamanho normal, mas nada aconteceu.

Ela se sentou no chão e pôs-se a pensar. Ela não queria fechar os olhos para que tudo voltasse ao normal; ela queria abrir todas as torneiras, uma a uma, e ver o que sairia. Porém não havia nada no quarto que pudesse ajudá-la, e ela provavelmente seria obrigada a fechar os olhos mais cedo ou mais tarde. Ela não estava sentindo o chão abaixo de si.

Porque ele não estava lá. Ela estava flutuando.

Voou pelo quarto, rindo, girando no ar até ficar tonta. Parou olhando para a porta, escolhendo a próxima torneira. Abriu-a, e uma gosma verde saiu. Abriu outra: fogo. Mais uma: trovões; não raios, mas trovões. De uma saiu cabelo; de outra, xampu. Sapos. Alfinetes. Doces. E, o mais estranho: outras torneiras. Ela abriu todas, e se divertiu até com aquelas que a assustaram. Fechou os olhos.

Tudo estava de volta ao normal, e ela se deitou na cama de novo. Já faziam alguns meses que ela tinha esses poderes somente dela, e de ninguém mais no mundo. Pela primeira vez desde então, ela parou pra pensar sobre isso. Se perguntou por que ela tinha estes poderes, como eles teriam surgido. Um dom dado por Deus? Parecia uma ideia absurda. Talvez fosse uma habilidade que, no fundo, todo mundo tem, mas só pouquíssimas pessoas a despertam. Fazia algum sentido. Ou talvez a habilidade simplesmente não exista, e ela estaria ficando louca. Era uma ideia assustadora.

Piscou os olhos três vezes.

Vários peixes surgiram no ar, e nadavam por ali como se o quarto fosse um aquário. Ela não conseguiu achar aquilo divertido, então fechou os olhos. Seus pensamentos a estavam incomodando de tal forma que ela não poderia se divertir.

Levantou-se da cama. Saiu do quarto. Da porta, avisou para a mãe que iria para a casa de uma amiga, mas não houve resposta – talvez ela tivesse saído para comprar algo.

A menina saiu de casa.

Não ia para a casa de uma amiga. Não sabia para onde ia; qualquer lugar serviria, desde que não fosse cercado por quatro – ou cinco ou seis ou um milhão, por que sempre tem de ser quatro? – paredes. As paredes limitavam seus poderes; ela não queria limites. Um parque, ótimo.

Sentou-se num balanço.

Piscou os olhos três vezes.


-Comentários do Autor-
Eu adorei esse conto. Nem a minha narrativa exageradamente acelerada e muito pouco descritiva – quando se trata dos cenários – conseguiu estragá-lo. É o meu novo favorito.

Eu fiquei surpreso que eu tenha conseguido escrever uma coisa assim bem no meio de um bloqueio criativo.

Agora, se eu conheço meus leitores – ou melhor, se eu conheço as pessoas que gostam de ler –, eu acho que não vão gostar muito desse final. Por mais que eu o tenha achado perfeito.

(se bem que esse título...)