29 de fevereiro de 2012

29/02

Hoje é o primeiro dia vinte e nove de fevereiro deste blog, e eu não podia deixar passar. Mas o que há para ser dito sobre o dia 29 de fevereiro? Não muita coisa, para falar a verdade.

Bem, eu já devo ter dito -- se não, direi agora -- que o blog Championship Vinyl é uma das coisas (coisas, não blogs, o que deixa subentendido que eu estou incluindo livros na lista) mais incríveis que eu já li (embora eu não o tenha lido muito ultimamente). Mas por que eu estou falando deste blog? Por que ele também tem uma postagem sobre 29 de fevereiro, feita -- é claro -- no último dia 29 de fevereiro, há quatro anos atrás.

E hoje, quatro anos depois, eu quero apontar um pequeno erro naquela postagem -- por pura falta do que fazer, mesmo.

O erro é que o Rob Gordon deu a entender que o ano bissexto é um tipo de "gambiarra" para corrigir um erro de cálculo na duração dos dias, quando não é bem por aí.

(É claro que o texto é humorístico e, portanto, não deve ser levado a sério e o erro pode ser ignorado. Não, nem tanto. Rob Gordon deu a entender que o ano bissexto não existiria se não houvesse um erro de cálculo, mas isso não é verdade.)

Uma coisa é verdade: houve um pequeno erro de cálculo quando o calendário foi criado -- no tempo de duração de um ano, e não de um dia. A questão é que o dia 29 de fevereiro não tem nada a ver com o este erro; o ano bissexto (ou outra solução essencialmente idêntica) iria existir mesmo que o calendário tivesse sido feito corretamente desde o início, como eu irei demonstrar.

Se você ainda não sabe porque o dia 29/02 existe, chegou a hora. O que acontece é que a rotação da Terra, que como você deve saber é o seu giro em torno do próprio eixo, dura 24 horas -- exatamente 24 horas, até porque primeiro foi calculada a duração de um dia para depois se dividir em horas. A translação da Terra, ou seu giro em torno do Sol, no entanto, não dura uma quantidade exata de dias, sendo a sua duração aproximada equivalente a 365 dias, 5 horas, 48 minutos e 46 segundos -- ou 365,2422 dias.

Por que, então, um dia a cada quatro anos?

Na verdade, não é tão simples assim. Primeiro, esses 365,2422 dias são arredondados para 365,25 dias, ou seja, 365 dias e 6 horas. Assim, ficam faltando 24 horas a cada quatro anos. Mas, como você deve ter notado, isso faz com que acrescentar um dia seja um pouco demais, já que a quantidade real de tempo que fica faltando é algo em torno de 23 horas e 15 minutos.

Aqui vai um fato que poucos de vocês já deveriam conhecer: nem todo o ano múltiplo de 4 é bissexto.

O problema de se adicionar tempo demais é resolvido fazendo com que a quantidade de anos bissextos a cada quatrocentos anos seja igual a 97, ao invés de cem. E isto é feito da seguinte forma:

Anos que sejam múltiplos de cem deixam de ser bissextos, exceto os que são múltiplos de quatrocentos. Ou, explicando de outra forma: o último ano de cada século que não seja múltiplo de 4 não é bissexto.

Como você pode notar, o ano 2000 só foi bissexto porque é múltiplo de 400, e o ano de 2100, apesar de ser múltiplo de quatro, não será bissexto, pois é múltiplo de 100.

Uma pequena observação: Este sistema ainda causará um dia de atraso dentro de mais de 3000 anos.

E este é o fim da minha postagem de 29 de fevereiro. Espero que tenha sido bem informativa.

28 de fevereiro de 2012

Dois Mil e Treze – Parte XI (Final)

(Atualizado em 24 de Agosto de 2012.)

Clique aqui para ler a parte IX.

DEZEMBRO.

Marco sentou-se diante do computador antigo e conectou-se à antiga internet, onde foi informado de algo um tanto quanto assustador.

Quando o mundo virtual que substituiu a internet surgira, em poucos dias havia adquirido mais visitantes do que a internet já possuiu. Agora, no entanto, o número de visitas a ele vem diminuindo consideravelmente. E o número de pessoas que andavam pelas ruas não aumenta.

***

Vida extraterrestre inteligente.

Um novo planeta foi encontrado na mesma galáxia de Hipnos. Para manter a velha tradição este também recebeu um nome vindo da mitologia grega: Moros, o deus do destino. A espécie dominante daquele planeta era bastante similar aos seres humanos, o que foi uma imensa surpresa para os cientistas, devido à grande improbabilidade de algo assim acontecer.

Estes seres construíam cidades e tinham uma tecnologia também muito parecida com a criada pelos seres humanos, porém um pouco mais primitiva. Tal semelhança da vida extraterrestre com a vida originada na Terra levou muitos cientistas a acreditarem que talvez este seja o único tipo de vida que pode existir no universo, enquanto muitos outros dizem que é apenas o tipo de vida com as melhores chances de surgir.

Os habitantes de Moros eram observados sem saber disso. Não houveram tentativas de comunicação, e qualquer tipo de intervenção humana naquele planeta estava proibida até que fosse determinado que era seguro.

***

— Vida inteligente fora da Terra? — disse Joanne, e logo depois se corrigiu — Vida inteligente originada fora da Terra!? Isso é inacreditável!

— Faz a gente pensar, não é? — respondeu Marco. — Que nós não somos tão especiais assim. Que a vida não é algo tão raro quanto imaginávamos. E, é claro, que se nós encontramos vida inteligente, então outros podem nos encontrar da mesma forma.

— Isso é… — disse Ed — Assustador.

— Sim. Assim como tudo o que vem acontecendo ultimamente… Acho que já disse isso antes. — Marco respirou fundo, olhou a praça ao seu redor. Nenhuma pessoa além de Joanne, Ed e, é claro, ele próprio. Estranhamente aquele era o pôr do Sol mais bonito que ele já chegou a ver — Tem uma outra coisa que me preocupa. Essa nova internet. Vocês chegaram a notar que há cada vez menos visitantes nela?

— Mas como você pode saber de algo assim? — Perguntou Ed — Eu pensei que você não entrasse mais na internet.

— Não importa. Eu só sei.

— Tudo bem. De qualquer forma, você tem razão. Ainda tem muita gente por lá, mas muito menos do que antes. Parece que ninguém percebe isso, no entanto.

— Era o que eu temia.

— O você acha que está acontecendo? — Joanne perguntou.

— Eu não sei. E isso é que mais me incomoda.

***

Marco se mantinha informado pelos servidores caseiros escondidos na antiga internet. À medida que o fim do mês se aproximava, o número de pessoas no mundo virtual que era a nova internet se tornava menor. Faltava muito pouco para ficar totalmente vazio.

Ele não podia suportar o fato de que ele era um personagem passivo nessa história, que não fazia nada além de observar o que acontecia. Ele precisava fazer alguma coisa.

Então ele saiu correndo de casa. Bateu nas portas de várias casas de estranhos. Bateu mesmo, espancou; esmurrou, deu joelhadas, pontapés, e até mesmo uma ou duas cabeçadas. Mas não houve nenhuma resposta.

Ele correu para a mesma praça de sempre, parou bem no meio e deu um grito para o céu. Em uma cena assim era de se esperar que os pássaros se assustassem e levantassem voo, mas isso também não aconteceu. Não haviam pássaros.

Marco caiu de joelhos no chão. Ele não sabia o que fazer, não tinha o que fazer. Então ele chorou.

***

Eventualmente, Marco se acalmou e voltou para casa.

Devia ter algo que ele pudesse fazer, qualquer coisa; nem que fosse apenas entender o que estava havendo.

Era isso. Ele nunca havia compreendido o que acontecia. Ele deveria ter tentando tudo o possível para entender as coisas desde o início.

Então ele se sentou diante do computador e começou a pesquisar. Ficou ali por dias.

***

21 de Dezembro de 2013.

De repente, Marco decidiu analisar o que havia acontecido antes da assim chamada Singularidade. Tudo o que ele pesquisou este tempo todo foram coisas que aconteceram depois deste evento. Ele se sentiu um tanto quanto estúpido por não ter percebido isto logo.

Então Marco encontrou uma página num dos cantos mais obscuros daquela internet que já era muito obscura. Uma pessoa havia armazenado uma imensa quantidade de páginas da antiga internet antes que ela fosse substituída e as disponibilizou em um servidor caseiro depois. Muitas destas páginas, como Marco pôde notar, nem sequer haviam sido visualizadas desde então.

A página falava sobre a explosão tecnológica que causou a Singularidade. E, quando Marco viu a data que separava a tecnologia da hiper tecnologia, ele finalmente entendeu tudo.

21 de Dezembro de 2012.

“Maias…”, ele pensou.

Então ele suspirou, fechou os olhos.


E sorriu.


-Comentários do Autor-
O FIM!
Eu não sei, mas tenho uma sensação de que este final vai decepcionar algumas pessoas… Mas acho que é o único que serve para essa história.

26 de fevereiro de 2012

Dois Mil e Treze – Parte X

(Atualizado em 24 de Agosto de 2012.)

Clique aqui para ler a parte IX.

NOVEMBRO.

Exceto pelas pessoas que vinham desembarcando de naves espaciais – e voltando logo para suas casas –, não se viam pessoas andando pelas ruas.

A internet não existe mais. Ao invés disso, há um mundo virtual gigantesco onde as pessoas podem fazer tudo que quiserem, que só é chamado de internet por tradição. Marco não acredita que as pessoas possam preferir uma vida artificial à vida real; no entanto, é verdade.

Não só a vida das pessoas pode ser artificial. Agora também existe a possibilidade de que existam pessoas artificiais. Todos os órgãos humanos podem ser feitos em laboratório, sendo cem por cento funcionais e, por serem construídos a partir do DNA do paciente, não há risco de rejeição. Os cientistas dizem, no entanto, que o cérebro é o único órgão que não pode ser fabricado; Marco tem dificuldades em acreditar nisso.

“É claro que eles estão mentindo. Sim, o cérebro pode ser construído artificialmente. É claro que pode. Eles só não contam isso para não assustar a população mais do que o necessário.”

Essa tecnologia está sendo usada para substituir os órgãos mais danificados das vítimas do acidente radiativo de Marte. Acredita-se que pelo menos 90% da população do planeta poderá ser descongelada.

As viagens espaciais ainda estão suspensas, até que haja uma solução para o problema causado pelas instabilidades no espaço-tempo.

Sentado no banco da praça, pensando em todas essas coisas, Marco diz em voz alta, sem ninguém para ouvir:

— Mas o que isso tudo significa?

***

— Então, todos os órgão humanos podem ser criados em laboratório? — Joanne deu um soco no ar, e sua mão recuou como se tivesse atingido alguma superfície elástica. Ela vestia uma imensa armadura robótica e parecia estar lutando com uma pessoa invisível, dando diversos golpes no ar.

— Estão dizendo que o cérebro é o único órgão que não pode ser criado dessa forma.

— Talvez o cérebro seja complexo demais. — Joanne deu um chute, movimento que foi reproduzido por uma representação dela mesma na TV, atingindo o inimigo virtual na barriga e derrubando-o no chão; então surgiu uma mensagem na tela dizendo que ela havia vencido a luta, e Joanne gritou ergueu o punho direito, comemorando sua vitória.

— Está brincando, Joanne? — indagou Marco — Nós temos tecnologia de leitura de mentes, nós temos o BranXtractor. É óbvio que os cientistas entendem o cérebro humano bem o suficiente para cloná-lo, e eu não gosto nada disso.

— Que tal outra luta, Joanne? — Era a voz de Ed, vindo da televisão — Oh, espere… Você não quer jogar também Marco?

— Não, obrigado.

— Ah, então tá. Joanne, você devia jogar isso com uma holovisão, é incrível!

— Não mesmo, — ela respondeu — é realista demais para mim.

— Eu não sei como vocês dois conseguem jogar isso, — disse Marco — quando estamos à beira do que pode ser o fim da humanidade.

***

Apenas por curiosidade, Marco decidiu entrar na internet. Não no mundo virtual que agora a substituía; não, Marco queria manter o máximo de distância daquilo. A internet em que ele tentou entrar era a mesma internet que já existia quando ele nasceu.

Marco sabia que todos os servidores desta internet haviam sido fechados, mas ele imaginou que com seus conhecimentos de tecnologia que, segundo Joanne, eram os de um gênio, ele seria capaz de encontrar algum servidor caseiro, caso existisse. E funcionou.

Ele encontrou redes sociais de pessoas com uma aversão à hiper tecnologia semelhante a sua própria. Encontrou diversas teorias sobre o que podia estar acontecendo, como a ideia de que toda essa tecnologia só poderia existir se os cientistas houvessem encontrado vida extraterrestre com inteligência superior à humana, e que tal tecnologia estaria sendo usada para transformar as pessoas em seres antissociais. Esta ideia chamou a atenção de Marco, não por ser nova para ele – pois era, de fato, quase a mesma coisa que ele pensava –, mas porque eram exibidas evidências para suportá-las que ele jamais havia visto.

Clique aqui para ler a parte XI (Final).

-Comentários do Autor-
Desta vez a próxima parte não está pronta (oh noes!). No entanto, será a última parte! Não acredito que finalmente estou terminando essa história. E logo agora que eu estava começando a gostar dos personagens... Ah, mas o que eu estou dizendo!? Eu ainda vou ter que revisar tudo para postar no Scribd!

24 de fevereiro de 2012

Dois Mil e Treze – Parte IX

(Atualizado em 24 de Agosto de 2012.)

Clique aqui para ler a parte VIII.

OUTUBRO.

As ruas da cidade se esvaziaram mais uma vez. E, desta vez, nem mesmo os androides as ocupavam.

Não era fácil dizer o que fazia com que as pessoas se isolassem do mundo em suas casas, depois voltassem para as ruas, e logo se isolassem novamente. Mas Marco, que nunca deixava de acompanhar o desenvolvimento da hiper tecnologia pela internet, achou ter visto o padrão.

Quando uma nova tecnologia aparecia, as pessoas ficavam em casa. Uma ou duas semanas depois, elas saíam; até surgir outra tecnologia. Porém haviam momentos que não condiziam com o padrão, como no começo do ano, com o Dreamulator.

Dreamulator. Ninguém mais se lembrava que isso existiu.

É claro que não. Havia algo muito mais interessante agora. A recém-criada holovisão.

***

Não foi a holovisão, no entanto, que fez com que se trancassem para, aparentemente, nunca mais saírem. Quando chegou o tempo em que Marco imaginou que as ruas seriam novamente ocupadas, aconteceu algo que aterrorizou toda humanidade.

Era o ápice da viagens espaciais. Existiam tantas naves construídas por seres humanos espalhadas pelo universo que elas carregavam 4,5 dos 7,5 bilhões de pessoas que vivem hoje, com o objetivo de colonizarem planetas até então desconhecidos.

Mas quase todas estas naves desapareceram.

Como isso aconteceu, ninguém sabe. Mas agora todos estão apavorados demais para saírem de casa. Para muitos o desaparecimento das naves parece uma prova irrefutável de existem alienígenas que querem destruir a raça humana de uma vez por todas, e quem tentar sair de casa será abduzido no instante em que colocar um pé do lado de fora.

Os cientistas, por outro lado, acreditam que pode ter havido alguma instabilidade no hiperespaço que transportou as naves para um universo paralelo, e logo eles descobrirão uma forma de trazê-las de volta.

No entanto surgiu um grande problema com isso. Os recursos dos habitantes de outros planetas vêm da Terra. E enquanto as naves não forem encontradas, todas as viagens hiperespaciais estão suspensas. Em pouco tempo estes planetas poderão ficar sem recursos, causando a inevitável morte de toda sua população. Neste caso os únicos sobreviventes seriam os habitantes da Terra, da Lua e de Marte.

Marco não sabia se devia confiar no que diziam os cientistas ou se devia acreditar na ideia de que era um ataque alienígena que havia se espalhado pela população aparentemente sem motivo. Mas sabia de uma coisa:

Ele não ia ficar trancado dentro de casa.

Andou pelas ruas vazias, pensando sobre tudo o que estava acontecendo. Por que ele não conseguia descobrir o que estava de errado? Ele tinha a sensação de que devia saber o que era, mas não importava o que fizesse, ele era incapaz de dizer o quê.

Chegou à praça. Nenhum sinal de vida além das árvores. Sentou-se no banco, e ficou olhando para o céu por mais tempo do que imaginou que seria capaz.

***

— Ei, Marco! — alguém gritou — Marco!! — gritou novamente, mais alto.

Ele abriu os olhos. Era Joanne.

— Ahn, o quê? O que aconteceu?

— Você estava dormindo neste banco — Ed respondeu. Marco não havia percebido que ele estava lá até então.

Marco se sentou.

— Que estranho… eu achei que tinha voltado para casa. Não, na verdade eu tinha certeza. — ele sacudiu a cabeça e suspirou — De qualquer forma… imagino que vocês sabem do desastre espacial que acaba de acontecer.

— Sim, sabemos, — disse Joanne — mais da metade das pessoas pelo universo estavam naquelas naves. É terrível.

— Sabe uma coisa curiosa? Eu só percebi o quanto a população da Terra estava diminuindo por causa disso. Eu sabia que muitas pessoas estavam em outros planetas, especialmente em Marte. É verdade que nossa população é superior a sete bilhões e meio. Mas já faz um tempo que, aqui na Terra, a população é só um pouco mais de um bilhão. E só parou de diminuir por causa desse desastre. Como eu deixei isso passar?

— Você não acha que se você tivesse percebido, poderia ter feito alguma coisa, acha? — Joanne perguntou.

— Eu não sei… Mas eu não consigo acreditar que eu fui tão cego. — e deu um suspiro — Eu queria saber o que está acontecendo.

***

Faltando três dias para acabar o mês, uma das naves desaparecidas reapareceu. Uma cientista que trabalhava na nave explicou que ninguém havia percebido o que aconteceu, até que algumas naves começaram a desembarcar em Marte e na Lua, e perceberem que não havia nenhum sinal de vida. O planeta Hipnos também estava vazio.

Esta cientista percebeu que estava em um universo paralelo devido a uma falha de estabilidade no hiperespaço e descobriu, sozinha, uma forma de voltar. Aos poucos, as outras naves foram sendo trazidas de volta, num processo que seria concluído na primeira metade do mês seguinte.

Clique aqui para ler a parte X.

-Comentários do Autor-
Yay! Parte nove!

Como vocês devem ter previsto, a décima parte já está pronta, o que significa que só falta uma parte a ser escrita. Além disso, a última será bem mais curta do que eu imaginava, pois eu cheguei perto do fim mais rápido do que o esperado; então a última parte, que era para ser a mais longa de todas, pode acabar sendo a mais curta.

A princípio, eu não queria usar a palavra holovisão, porque ela já é usada com significados diferentes do significado que eu usei. Mas é uma palavra boa demais para não se usar.

23 de fevereiro de 2012

Dois Mil e Treze – Parte VIII

(Atualizado em 24 de Agosto de 2012.)

Clique aqui para ler a parte VII.

SETEMBRO.

Joanne acordou com o barulho de seu celular. Havia recebido uma mensagem que dizia apenas “Praça. Agora.”.

Sem se preocupar em observar quem lhe havia enviado a mensagem – presumindo que era Ed –, Joanne se vestiu e saiu de casa. Foi à praça andando.

Quando, há poucos metros do local, ela viu um rapaz sentado no banco, ela não conseguiu acreditar; convenceu-se de que era algum tipo de ilusão. Porém à medida que se aproximava, a ideia de uma ilusão se dissipava, e as lágrimas – não de tristeza, mas de algum outro sentimento; mas qual? – começavam a encher-lhe os olhos.

— Marco… — soluçou.

Ela estava atrás do banco, e Marco girou a cabeça até que pudesse vê-la, no exato momento em que o punho da garota o atingiu no maxilar. Raiva, claro.

— Como você pôde fazer isso comigo!?!? — vociferou — Desaparecer sem deixar nenhum aviso! — e seu tom de voz baixou: — Como você pôde ser tão irresponsável? — caiu de joelhos, e cobriu os olhos, chorando — Eu fiquei tão preocupada… eu…

Por alguns segundos, Marco não soube o que fazer; talvez a dor no queixo tenha bagunçado um pouco o seu cérebro. Então ele deu a volta no banco e a abraçou, e não largou enquanto ela não parou de chorar.

***

— Então você também leu sobre o tal de AR-HID — disse Marco; eles estavam agora sentados no banco, olhando para as ruas povoadas por robôs e humanos. Mais robôs do que humanos; muito mais. — Como você se sentiu quando leu?

— Eu não sei ao certo — ela respondeu —, senti náuseas. Um pouco de medo, talvez.

— É, eu também. E eu li muitas outras coisas que me deixaram bastante perturbado. Há mais de um mês eu mostrei a Ed um aparelho chamado BranXtractor, e pouco tempo depois, eu vi o que as pessoas andam fazendo com ele. Elas andam publicando dezenas, talvez centenas de imagens, sons, vídeos e textos gerados diretamente de suas mentes. Você consegue entender o quão terrível é isso?

— Não tenho certeza. Mas de alguma forma eu sinto que seja algo muito ruim. Todas estas coisas que sempre te incomodaram, Marco, começaram a me incomodar recentemente.

— As pessoas estão colocando seus cérebros na internet, Jo. Estão literalmente dizendo “ei, que tal dar uma boa olhada em tudo que se passa na minha cabeça?”. É verdade que o que chamam de ruído só pode, em teoria, ser entendido pela mesma pessoa de quem a mente foi “extraída”. Mas, e quanto aos cientistas que criaram esta tecnologia, hein? Você não acha que eles devem ser capazes de decodificar este tal ruído?

— Meu deus!… — disse Joanne, pela primeira vez entendendo tudo o que Marco dizia, sem ficar confusa ou achar que ele estava ficando biruta.

— Você se lembra quando eu falei sobre as pessoas estarem lendo muitos textos na internet, sem nenhum motivo razoável? E disse que era um sinal de que algo estranho estava acontecendo?

— Eu me lembro, sim. E também me lembro de ter dito que era loucura. Não parece loucura agora.

— Eu continuei verificando isto — Marco falou — Vasculhei por informações por toda a internet. Você não vai acreditar no que eu descobri — ele esperou que Joanne dissesse alguma coisa, mas ela permaneceu em silêncio — Rastreei a atividade na internet de pelo menos 30 destas pessoas que andam expondo sua mente de forma indiscriminada pela rede. Todos eram leitores dos mesmos textos dos quais falei no passado. Todos eles.

***

Vida extraterrestre.

Nenhuma vida inteligente, ainda. Mas foi encontrado um planeta em um sistema estelar semelhante ao sistema em que a Terra se encontra, onde há uma vida incrivelmente familiar. O seres que viviam naquele planeta, que recebeu o nome de Hipnos – o deus grego do sono –, podiam ser facilmente classificados de acordo com os mesmos padrões já usados no planeta natal dos humanos.

Haviam animais que possuíam uma semelhança marcante com as aves mas que, curiosamente, não tinham asas. Os seres que voavam eram todos tipos de mamíferos. E formas de vida fixas ao solo e espalhadas por toda parte, as plantas daquele planeta, possuíam estruturas semelhantes a folhas, porém de cor quase sempre azulada. Hipnos parecia muito com uma Terra alternativa em que a evolução tivesse tomado algumas “decisões” diferentes.

Não demorou muito para que a carne daqueles animais e os frutos daquelas plantas virassem comida para os seres humanos. Entretanto, essa comida jamais chegou à Terra, sendo exclusiva dos cidadãos de Marte, e tornando-se o alimento padrão de todo aquele planeta.

***

— Eu não sei todos os detalhes, — disse Marco — mas ninguém sequer pensou em analisar os níveis de radiatividade de Hipnos. Agora todo o planeta Marte está contaminado e sua população, por causa disso, foi totalmente isolada do resto do universo.

— É meio estranho dizer isso, “isolada do resto do universo”. É difícil conseguir absorver a ideia de pessoas vivendo em outros planetas. Em outras galáxias — respondeu Joanne.

— Engraçado, — disse Ed. Os três estavam em sua casa, Marco e Joanne sentados no mesmo sofá na sala de estar, enquanto ele instalava a holovisão que havia acabado de comprar — eu sempre me senti muito confortável com a hiper tecnologia, sabe? Como se antes dela houvesse algo faltando no mundo. — Ed olhou para o objeto cúbico que segurava entre o indicador e o polegar, tão pequeno quando a unha de seu dedo mínimo, como quem estivesse tentando descobrir o que era aquilo — Mas depois de ouvir essa história, essa coisa toda está começando a me assustar. — ele colocou o cubo no objeto metálico em sua cabeça que tinha alguma semelhança com uma coroa – é claro, aquele cubo era o controle telepático da holovisão. — Quem diria que as primeiras formas de vida extraterrestre que encontraríamos seriam radiativas?

Uma imagem tridimensional se formou e preencheu a metade da sala mais próxima da holovisão. Um paciente sobre uma cama de hospital, um médico o diagnosticando com alguma doença de nome quase impronunciável. Era impossível distinguir os personagens fictícios da realidade.

Ed se sentou na ponta vaga do sofá, do lado esquerdo de Marco, que disse:

— Eu diria. Aprendi a sempre esperar pelo pior.

***

O acidente radiativo de Marte matou quase metade da população do planeta e deixou todos os sobreviventes contaminados. Este acidente também antecipou o surgimento de uma nova tecnologia: a criogenização.

As primeiras pessoas a serem congeladas foram 80% da população restante de Marte, para permanecerem neste estado até que fosse descoberta uma forma de reverter os efeitos da radiatividade. Os outros 20% – correspondentes aos que sofreram menos com a contaminação – só poderiam ser congelados semanas mais tarde.

As próximas pessoas a serem congeladas teriam de pagar uma fortuna pelo serviço – especialmente devido ao prejuízo causado com o congelamento dos 900 milhões de pessoas que viviam no planeta vermelho.

Clique aqui para ler a parte IX.

-Comentários do Autor-
Wow! Estamos bem pertinho do fim agora! São mais três partes para postar aqui, das quais uma e meia já estão escritas.

19 de fevereiro de 2012

Três Anos

Hoje é o aniversário de três anos do blog.

Essa é a primeira postagem de aniversário do blog que eu faço do jeito certo (i.e. na data certa e falando realmente sobre o aniversário do blog).

O problema é que eu não faço ideia de como uma postagem de aniversário de um blog deve ser. Quero dizer, falar que o blog faz aniversário hoje já não basta? Por que eu deveria fazer algo além disso?

De qualquer forma, eu fiz esse desenho, para "comemorar" a data:




É isso.

P.S.: Para quem estiver curioso, o desenho foi feito a lápis e pintado no GIMP.

7 de fevereiro de 2012

Livros


Você já deve ter ouvido alguém dizer que ler livros por meios digitais, como no computador, num tablet ou mesmo num celular simplesmente não é tão bom quanto num livro "de verdade" (sigh... como se um livro digital fosse "de mentira"), feito de papel. Daí quando você pede uma justificativa, a resposta padrão é que você pode pegar o livro impresso você pode pegar, sentir (coisas que também dá pra fazer com um computador, por sinal). É uma resposta bastante vaga, não?

O que a sensação de pegar num livro tem a ver com a leitura? De que forma ela pode fazer o conteúdo do livro melhor?

Se você acredita que a experiência de ler um livro impresso é superior a de ler um livro digital, bem, você está se preocupando com coisas que não deveria; ao pensar assim, você está se importando mais com o meio pelo qual o conteúdo é transmitido do que com o conteúdo em si.

E o conteúdo deveria ser a única coisa que importa. Se o conteúdo é transmitido com eficiência, então o meio pode ser ignorado. Tanto faz se você está lendo em um objeto feito de papel ou em um aparelho eletrônico ou se o livro lhe está sendo transmitido por telepatia – o que, infelizmente, não é possível.

Imagine um escritor que publica seus livros através de uma editora, que imprime milhares de cópias antes de saber se o livro vai mesmo vender isso tudo (às vezes se vender cem é sorte), e outro que publica todos os seu livros apenas no formato digital – e o faz com o objetivo de salvar algumas árvores. É um absurdo dizer que o primeiro é melhor do que o segundo só porque publica em mídia impressa, e um absurdo maior ainda dizer que o segundo deveria deixar de lado a ideia de salvar algumas árvores e fazer livros "de verdade" se quiser ser realmente um bom escritor.

Os defensores do livro de papel, é claro, ignoram que estão dizendo esses absurdos.

É óbvio que isso tudo também vale para livros em áudio. Não seria uma atitude estúpida dizer que um cego não pode aproveitar tanto a leitura quanto uma pessoa que enxerga perfeitamente? Pra mim isso não parece muito diferente de dizer que o cego, apenas por ser cego, não pode aproveitar a vida tão bem quanto uma pessoa com visão.


Então fica minha dica para vocês. Preocupem-se sempre com o conteúdo, e nunca com o meio pelo qual ele é transmitido.

3 de fevereiro de 2012

Dois Mil e Treze – Parte VII

(Atualizado em 24 de Agosto de 2012.)

Clique aqui para ler a parte VI.

AGOSTO.

Joanne acordou.

Haviam pelo menos duas semanas que ela não via Marco. Estava preocupada com ele. Deveria ter começado a visitá-lo todos os dias depois que ele destruiu todos os objetos de seu quarto, ela pensou. Deveria ter feito o possível para convencê-lo a falar com um psiqui… psicólogo, ela se corrigiu.

Entrou de pijamas na cápsula que ficava próxima a sua cama e, em poucos segundos, saiu vestida de forma que poderia sair de casa. E saiu, sem tomar seu café da manhã.

O terminal de teletransporte mais próximo ficava a menos de cem metros dali, ela entrou, inseriu seu cartão-passe no painel e digitou o código que havia associado ao terminal mais próximo da casa de Marco. Uma luz verde acendeu, e ela saiu, já na rua em que ele mora.

Tocou a campainha, e não houve resposta. Tocou novamente, esperou, e nada. Lembrou-se que Marco a havia dado o código do teletransportador pessoal que ele possuía, sem explicar a razão; então ela voltou para o terminal próximo dali.

Quando ela saiu do aparelho, estava na sala de estar de Marco. Olhou em volta; a não ser pelo teletransportador do qual havia acabado de sair, não havia nenhum sinal de hiper tecnologia à vista. Gritou o nome de Marco, e nada. Olhou por toda casa, e não havia nenhum sinal de vida.

Marco havia desparecido.

***

— Espera, — disse Ed, Joanne havia acabado de lhe contar sobre sua ida a casa de Marco — ele não morava com os pais? Por que você não os procurou?

— Sim, ele morava com os pais. Mas há alguns meses eles foram para um pseudo-país recém-criado na Europa, e Marco se recusou a ir. Eles enviam dinheiro para ele todo mês. Eu não tenho ideia de como entrar em contato com eles, e Marco me disse que eles só voltariam, se não me engano, no início de 2014.

— Então, ele sumiu mesmo, né?

— É, sumiu. E não há nada que eu possa fazer.

Silêncio.

Então, Ed falou:

— Eu preciso voltar para casa. Espero que Marco esteja em segurança.

— É. Eu também.

Ed se levantou do banco da praça e andou até o seu carro. Antes de entrar e ir embora, perguntou a Joanne se ela iria mesmo ficar ali; ela disse que sim. Estava começando a escurecer. Joanne só se levantou muito depois de a luz do Sol se apagar.

***

— A máquina do fim do mundo — disse Marco para si próprio, sentado diante de um computador mais antigo que a própria internet – algo considerado uma verdadeira relíquia no ano de 2013; utilizava-o em uma sala escura, onde a única luz presente vinha do monitor. Com o modem que usava, ele mal conseguia acessar os sites da antiga internet; os sites da nova internet, por sua vez, eram todos visualizados de forma incorreta, mas lhe era o bastante para acessar o conteúdo de que precisava.

A notícia que lia era sobre a criação do “Dispositivo de Absoluta Interação Humana à Distância”, apelidado de “AR-HID”. É um aparelho que permite que dois seres humanos, separados a qualquer distância possível no mesmo planeta – seja a Terra ou Marte –, podem interagir como se estivessem na mesma sala, sem nenhum tipo de restrição. Cada pessoa envolvida controla, por intermédio de sensores presos ao corpo, um robô anatomicamente perfeito presente no mesmo local onde se encontra a outra pessoa. Interações entre três ou mais pessoas também são possíveis, mas requerem um sistema muito mais complexo.

“Nunca mais sairão de casa”, Marco pensou, “Todos vão começar a ter relações sexuais apenas através dessa coisa. Esse dispositivo vai causar a extinção da espécie”.

Desligou o computador, ficando cercado de trevas.

“Talvez eu deva sair”.

***

“Marco pode ter razão”, Joanne pensou, “Talvez a hiper tecnologia seja um forma de controlar a mente das pessoas. Talvez não pertença a este tempo.”. Ela não podia acreditar que estava concordando com aquela loucura mas… talvez não fosse loucura, afinal.

“Mas por que eu não vejo o que ele vê? Por que eu não enxergo o que está errado?”, ela se perguntou.

— Ah, Marco — Suspirou — Onde você está?

Era manhã. Tão logo acordou, Joanne foi até aquela praça. Nada de teletransportadores, nada de veículos que voam; ela foi andando. Muitos robôs andavam pelas ruas; e uma pessoa ou duas. Muitas vezes não era possível dizer quem era robô e quem era humano e, pela primeira vez, aquilo estava deixando Joanne perturbada. Talvez ela estivesse começando a entender a mente daquele maluco que ela tem por amigo.

“Onde você está?”.

Joanne chorou.

***

31 de Agosto.

Joanne leu sobre o AR-HID. Ela demorou alguns minutos para conseguir absorver aquilo.

“Isso é terrível.”, pensou.

“Esse aparelho está destruindo o contato humano, mas estão divulgando como se fizesse o contrário.”.

“Eu me pergunto se Marco leu isso.”.

Clique aqui para ler a parte VIII.

-Comentários do Autor-
A próxima parte – que é a melhor, na minha opinão – já está escrita. Então faltam apenas três partes para eu terminar.